Sobre Economia Circular

Sobre Economia Circular

A economia circular é um sistema de produção e consumo que promove o uso sustentável dos recursos, em ciclos fechados energizados por fontes renováveis, regenerando o capital natural e assegurando o progresso social.
 

História

A origem do conceito de “economia circular” é disputada. Alguns académicos consideram que o economista britânico Kenneth Boulding é o pai da ideia, num artigo publicado em 1966, The Economics of Coming Spaceship Earth. Neste artigo, Boulding fala na “economia fechada do futuro” ou “spaceman economy”: tal como uma nave espacial, o planeta Terra é finito e não possui reservatórios ilimitados de coisa nenhuma; há limites para a extração de recursos e para a absorção de poluição. Assim, “o homem deve encontrar o seu lugar num sistema ecológico cíclico que seja capaz de renovar continuamente os seus recursos materiais, ainda que não possa prescindir de receber inputs energéticos exteriores”. Integrando diferentes contributos de diferentes escolas de pensamento (entre outros a Economia de Desempenho de Walter Stahel; a filosofia de design Cradle to Cradle de William McDonough e Michael Braungart) e a Ecologia Industrial de Reid Lifset e Thomas Graedel), a economia circular começou ser operacionalizada nos anos 80 e 90, com a Holanda e a Alemanha a serem pioneiras na implementação de políticas de prevenção e valorização de resíduos.
No início dos anos 2000, a China contribuiu de forma determinante para a proeminência que o conceito tem hoje. O governo chinês incorporou a economia circular nos seus planos quinquenais, enquanto estratégia de crescimento capaz de reverter os problemas de escassez de recursos e degradação ambiental associados ao rápido ritmo de expansão da economia. A Fundação Ellen McArthur (que nasceu no Reino Unido sob o impulso de uma ex-campeã de vela e com o apoio de vários parceiros corporativos) é um ator fundamental no ecossistema da economia circular, tendo desde a sua criação em 2010 contribuído largamente para o aprofundamento e divulgação do pensamento sobre economia circular em todo o mundo. A partir de 2010, a União Europeia fez um trabalho importante nesta área, publicando uma série de diretivas que em 2015 tomaram o nome de Fechar o Ciclo – Um Plano de Ação para a Economia Circular (e que constituiria o quadro de partida para Plano de Ação para a Economia Circular que o governo português lançou no final de 2017).
 

Princípios

Regeneração do capital natural

A natureza sustenta toda a vida humana. Utilizamos o termo “capital natural” para reforçar a ideia de que a vida não-humana é responsável pela produção de recursos essenciais para a economia; não são apenas as actividades humanas que geram valor. Daqui decorrem duas ideias essenciais: quando a produção de bens e serviços tem como consequência a destruição dos ecossistemas (pensemos na poluição de um curso de água por uma fábrica têxtil, por exemplo), então é a própria vida humana que está a ser destruída – sobretudo a das gerações futuras, às quais vai faltar esse capital natural. Para assegurar a preservação do capital natural, há que penalizar as atividades destruidoras da natureza e promover aquelas que interferem o menos possível com o equilíbrio dos ecossistemas.

Por outro lado, uma vez que as actividades produtivas humanas dependem do capital natural, ao reforçarmos os recursos naturais estamos a reforçar o potencial de crescimento sustentável da nossa economia. Por exemplo: a prática intensiva da monocultura degrada os solos. Reforçar a saúde dos solos equivale a trabalhar para a nossa própria segurança alimentar. Investir na natureza é investir numa economia saudável e resiliente.

Fechar os ciclos

A ideia de ciclo está no coração da economia circular. Em vez de exigirem repetida extração de recursos naturais e de gerarem resíduos, a produção e o consumo deveriam ocorrer, tanto quanto possível, em ciclos fechados. Num ciclo económico (tendencialmente) fechado, o desperdício não existe: os bens são reparados e reutilizados em vez de descartados, as matérias-primas provêm da reciclagem em vez da extração, e assim por diante.

Podemos distinguir dois tipos de ciclo: orgânico e técnico. No ciclo orgânico, os processos naturais da vida regeneram recursos: é o caso da compostagem de restos de alimentos, que devolve nutrientes ao solo. No ciclo técnico trata-se de usar repetidamente os materiais (polímeros, ligas, etc), com o menor aporte de energia possível e por forma a manter o máximo de qualidade. Para que essa reinserção seja possível, os materiais têm de ser concebidos de acordo com critérios de ecodesign e tem de haver sistemas de gestão de informação que sustentem o processo.

Perspetiva sistémica

A economia é um sistema em cujo interior interagem múltiplos atores e fatores, e que está integrado nos sistemas mais largos da sociedade e do planeta, deles dependendo. A mudança de paradigma económico – de linear para circular – requer a ativação e a transformação integrada de todos os elementos do sistema e das suas relações. Não se trata de promover a eficiência energética das unidades de produção, ou de alterar hábitos de consumo, ou de promulgar políticas ambientais; trata-se de fazer tudo isto e mais, de forma integrada e articulada, sem nunca perder de vista o debate essencial sobre o que é, e como alcançar, o bem-estar do planeta e da humanidade, com todos e para todos, hoje e no futuro.