O meu “Plastic Free July”

By Agosto 9, 2017Uncategorized

No mês passado decorreu o desafio PLASTIC FREE JULY (Julho sem plástico). Esta iniciativa, anual e internacional, pretende sensibilizar as pessoas para o problema da poluição nos oceanos, desafiando-as a alterar os seus hábitos de consumo através da redução do uso do plástico, principalmente o descartável. 

Importa, em primeiro lugar, saber porque é que desafios como este são, infelizmente, necessários. Para tal, recomenda-se a leitura de artigos recentes no jornal The Guardian ou na revista Science, e a visão de pequenos vídeos informativos disponíveis online, como Our Plastic, Our ProblemOpen Your Eyes ou Midway, a Plastic Island, que ilustram rápida mas eficazmente este oceânico problema. Para quem tem Netflix, o documentário A Plastic Ocean é obrigatório, tal como são as exposições e atividades que a Plasticus Maritimus vai promovendo ao longo do país. Segundo a União Internacional de Conservação da Natureza (UICN), “50 a 80% do lixo nas zonas costeiras do planeta é plástico”. Imersa em milhares de razões, resolvi aceitar o desafio e experimentei viver sem plástico descartável durante 1 mês.

Comecei com o Top 4 (sacos de plástico, garrafas e copos descartáveis de plástico, palhinhas):

  • Para substituir o Inimigo Público Nº1, os sacos de plástico, tenho sempre na mala dois sacos, um de pano e outro descartável, ambos reutilizáveis. Para os dias de mercado de frutas e hortícolas, uso uma ceira de palha.

  • A compra de uma garrafa de água reutilizável tem um impacto positivo muito significativo no ambiente, evitando que inúmeras garrafas e copos de plástico descartáveis tenham como destino a incineração, aterro ou downcycling. A minha garrafa azul está presente sempre que a sede aperta e tem ainda a vantagem adicional de ser feita de aço inoxidável, não contendo os desreguladores endócrinos Alumínio e BPA.

  • Para deixar de usar palhinhas, passei a dizer “Não quero palhinha!” antes de me trazerem o meu smoothie ou batido preferido (em copo de vidro, claro!).

Seguidamente, continuei o desafio focando-me nas 4 principais áreas onde poderia reduzir o consumo de plástico, dentro e fora de casa: 1) Compras; 2) Higiene Pessoal, 3) Limpeza da Casa e 4) na Cozinha.

No primeiro capítulo, fui às compras a granel: os mercados são uma das melhores formas de comprar frutas e vegetais, biológicos e locais, sem sacos ou caixas de plástico. Outra das formas, é receber cabazes biológicos em casa e, caso tragam embalagens de plástico, devolver diretamente aos produtores, contribuindo assim para a sua reutilização.

Felizmente, é cada vez maior a lista de produtos de mercearia que se podem comprar a granel, em lojas de bairro, mercados, supermercados biológicos ou não: leguminosas, cereais, frutos secos, sementes, chás, azeitonas, tremoços…. Só temos que ter o cuidado de escolher os locais de compra que disponibilizam sacos de papel ou, para os mais avançados em Desperdício Zero, levar as próprias embalagens (sacos de tecido e/ou frascos de vidro).

Terminei as minhas compras relembrando tempos antigos: fui ao baú buscar o saco do pão bordado pela minha avó e procurei uma padaria perto de mim, onde pudesse comprar pão a granel. Pão a sério, daquele que só tem 4 ingredientes (farinha, água, fermento e sal), e que não sabe a plástico nem é embalado em plástico!

No capítulo da Higiene Pessoal, fiz as seguintes alterações:

  • A utilização de sabonete sólido em vez de gel de banho, sabonete líquido e até tónico facial, é uma das substituições mais fáceis e mais eficazes de concretizar (eliminação de 3 embalagens de plástico!). É possível encontrar sabonetes sem embalagem de plástico nem substâncias químicas prejudiciais à nossa saúde (por exemplo, parabenos e triclosan).

  • Passei a usar óleo de côco… na casa de banho! Como é geralmente vendido em frasco de vidro, é perfeito para substituir o creme hidratante corporal e facial e até o batom do cieiro, geralmente comercializados em embalagens de plástico. Desta forma, poupo dinheiro e ainda evito os microplásticos normalmente presentes nos cosméticos.

  • Já há muito tempo que não uso cotonetes: para além de me terem sido desaconselhadas pelos otorrinolaringologistas na limpeza dos ouvidos, as cotonetes são dos resíduos mais encontrados nos oceanos e praias, segundo a Associação Portuguesa do Lixo Marítimo. Ao serem atirados para a sanita, estes bastões de plástico acabam por ser arrastados através da rede de esgotos até ao mar.

Já no capítulo da Limpeza da Casa, o vinagre branco revelou-se um produto 3 em 1, substituindo eficazmente o lava tudo para o chão, limpa vidros e multiusos. Apesar de não ter químicos nefastos, é vendido numa embalagem de plástico… A alternativa mais ecológica passa pelos dispensadores de detergentes a granel com embalagens reutilizáveis para a limpeza da casa, roupa e louça, disponíveis nalgumas lojas de produtos biológicos.

E, finalmente, o mais apetecível e saboroso capítulo, Cozinhar em Casa:

  • O takeaway deveria chamar-se “throwaway”, se pensarmos nas pilhas de caixas, talheres, copos e sacos, todos de plástico, que acompanham as refeições que encomendamos quando falta o tempo, paciência, inspiração… O segredo, uma vez mais, é simples e ganhamos em várias frentes: se definirmos um plano semanal de refeições (mais saudável), as compras são feitas à medida (mais económico), e podemos cozinhar em quantidade para mais do que uma refeição, guardando em doses no frigorífico e/ou no congelador (mais tempo). Tudo guardado em caixas ou frascos de vidro, claro!

  • Resgatei a velhinha iogurteira da minha mãe e fiz iogurte caseiro. De uma assentada, recuperei as memórias de infância (quando o descartável ainda não reinava e os pequenos eletrodomésticos eram feitos para durar) e eliminei várias embalagens de plástico.

  • Não há nada mais fácil do que fazer granola em casa: aproveito as compras a granel de cereais, sementes e frutos secos que fiz, junto tudo num tabuleiro, adoço frugalmente e não refinadamente, e tosto no forno. Sirvo com o iogurte caseiro e a fruta biológica comprada no mercado, e começo o dia com um pequeno-almoço mais saudável e com menos idas ao Ecoponto Amarelo!

  • Como ainda temo aventurar-me nessa arte maior que é fazer pão manualmente, uso uma máquina do pão. Opto por comprar os ingredientes a granel ou em embalagens de papel e desenvolvi a minha própria receita de pão integral com sementes.

  • Já deixar de usar película aderente pode ser tão simples como colocar um prato em cima da taça, improvisando uma tampa… ou guardar aquela metade de tomate que sobrou num frasco, em vez de o asfixiar em camadas de plástico.

Resumindo e concluindo: passar um mês sem usar o Top 4 foi tão descomplicado que facilmente se tornará um hábito daqui para a frente. Já viver sem plástico descartável obriga a uma mudança no nosso estilo de vida, a uma mudança para um consumo consciente e solidário, conduzindo a uma reaprendizagem que se revela benéfica a todos os níveis. Durante este mês, e tanto quanto pude, retirei o plástico da equação, direta ou indiretamente. Perdi algumas batalhas (pasta dentífrica ainda em embalagem de plástico ou bebida vegetal em tetra pack, e alguns restaurantes sem alternativas a bebidas em copo ou embalagem de plástico) mas ganhei em saúde, poupei dinheiro e produzi menos lixo. Com tantas vantagens, o passo lógico será incorporar este desafio, gradual mas persistentemente, na minha rotina futura.

Uma nota final para os vários projetos portugueses e vencedores de prémios que podemos e devemos apoiar: Brigada do MarOcean AlivePlastic SunDays e Straw Patrol contribuem para que “A Minha (Nossa) Praia” seja “Plastic Free” todos os meses do ano!

Inês Garcia

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