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O meu “Plastic Free July”

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No mês passado decorreu o desafio PLASTIC FREE JULY (Julho sem plástico). Esta iniciativa, anual e internacional, pretende sensibilizar as pessoas para o problema da poluição nos oceanos, desafiando-as a alterar os seus hábitos de consumo através da redução do uso do plástico, principalmente o descartável. 

Importa, em primeiro lugar, saber porque é que desafios como este são, infelizmente, necessários. Para tal, recomenda-se a leitura de artigos recentes no jornal The Guardian ou na revista Science, e a visão de pequenos vídeos informativos disponíveis online, como Our Plastic, Our ProblemOpen Your Eyes ou Midway, a Plastic Island, que ilustram rápida mas eficazmente este oceânico problema. Para quem tem Netflix, o documentário A Plastic Ocean é obrigatório, tal como são as exposições e atividades que a Plasticus Maritimus vai promovendo ao longo do país. Segundo a União Internacional de Conservação da Natureza (UICN), “50 a 80% do lixo nas zonas costeiras do planeta é plástico”. Imersa em milhares de razões, resolvi aceitar o desafio e experimentei viver sem plástico descartável durante 1 mês.

Comecei com o Top 4 (sacos de plástico, garrafas e copos descartáveis de plástico, palhinhas):

  • Para substituir o Inimigo Público Nº1, os sacos de plástico, tenho sempre na mala dois sacos, um de pano e outro descartável, ambos reutilizáveis. Para os dias de mercado de frutas e hortícolas, uso uma ceira de palha.

  • A compra de uma garrafa de água reutilizável tem um impacto positivo muito significativo no ambiente, evitando que inúmeras garrafas e copos de plástico descartáveis tenham como destino a incineração, aterro ou downcycling. A minha garrafa azul está presente sempre que a sede aperta e tem ainda a vantagem adicional de ser feita de aço inoxidável, não contendo os desreguladores endócrinos Alumínio e BPA.

  • Para deixar de usar palhinhas, passei a dizer “Não quero palhinha!” antes de me trazerem o meu smoothie ou batido preferido (em copo de vidro, claro!).

Seguidamente, continuei o desafio focando-me nas 4 principais áreas onde poderia reduzir o consumo de plástico, dentro e fora de casa: 1) Compras; 2) Higiene Pessoal, 3) Limpeza da Casa e 4) na Cozinha.

No primeiro capítulo, fui às compras a granel: os mercados são uma das melhores formas de comprar frutas e vegetais, biológicos e locais, sem sacos ou caixas de plástico. Outra das formas, é receber cabazes biológicos em casa e, caso tragam embalagens de plástico, devolver diretamente aos produtores, contribuindo assim para a sua reutilização.

Felizmente, é cada vez maior a lista de produtos de mercearia que se podem comprar a granel, em lojas de bairro, mercados, supermercados biológicos ou não: leguminosas, cereais, frutos secos, sementes, chás, azeitonas, tremoços…. Só temos que ter o cuidado de escolher os locais de compra que disponibilizam sacos de papel ou, para os mais avançados em Desperdício Zero, levar as próprias embalagens (sacos de tecido e/ou frascos de vidro).

Terminei as minhas compras relembrando tempos antigos: fui ao baú buscar o saco do pão bordado pela minha avó e procurei uma padaria perto de mim, onde pudesse comprar pão a granel. Pão a sério, daquele que só tem 4 ingredientes (farinha, água, fermento e sal), e que não sabe a plástico nem é embalado em plástico!

No capítulo da Higiene Pessoal, fiz as seguintes alterações:

  • A utilização de sabonete sólido em vez de gel de banho, sabonete líquido e até tónico facial, é uma das substituições mais fáceis e mais eficazes de concretizar (eliminação de 3 embalagens de plástico!). É possível encontrar sabonetes sem embalagem de plástico nem substâncias químicas prejudiciais à nossa saúde (por exemplo, parabenos e triclosan).

  • Passei a usar óleo de côco… na casa de banho! Como é geralmente vendido em frasco de vidro, é perfeito para substituir o creme hidratante corporal e facial e até o batom do cieiro, geralmente comercializados em embalagens de plástico. Desta forma, poupo dinheiro e ainda evito os microplásticos normalmente presentes nos cosméticos.

  • Já há muito tempo que não uso cotonetes: para além de me terem sido desaconselhadas pelos otorrinolaringologistas na limpeza dos ouvidos, as cotonetes são dos resíduos mais encontrados nos oceanos e praias, segundo a Associação Portuguesa do Lixo Marítimo. Ao serem atirados para a sanita, estes bastões de plástico acabam por ser arrastados através da rede de esgotos até ao mar.

Já no capítulo da Limpeza da Casa, o vinagre branco revelou-se um produto 3 em 1, substituindo eficazmente o lava tudo para o chão, limpa vidros e multiusos. Apesar de não ter químicos nefastos, é vendido numa embalagem de plástico… A alternativa mais ecológica passa pelos dispensadores de detergentes a granel com embalagens reutilizáveis para a limpeza da casa, roupa e louça, disponíveis nalgumas lojas de produtos biológicos.

E, finalmente, o mais apetecível e saboroso capítulo, Cozinhar em Casa:

  • O takeaway deveria chamar-se “throwaway”, se pensarmos nas pilhas de caixas, talheres, copos e sacos, todos de plástico, que acompanham as refeições que encomendamos quando falta o tempo, paciência, inspiração… O segredo, uma vez mais, é simples e ganhamos em várias frentes: se definirmos um plano semanal de refeições (mais saudável), as compras são feitas à medida (mais económico), e podemos cozinhar em quantidade para mais do que uma refeição, guardando em doses no frigorífico e/ou no congelador (mais tempo). Tudo guardado em caixas ou frascos de vidro, claro!

  • Resgatei a velhinha iogurteira da minha mãe e fiz iogurte caseiro. De uma assentada, recuperei as memórias de infância (quando o descartável ainda não reinava e os pequenos eletrodomésticos eram feitos para durar) e eliminei várias embalagens de plástico.

  • Não há nada mais fácil do que fazer granola em casa: aproveito as compras a granel de cereais, sementes e frutos secos que fiz, junto tudo num tabuleiro, adoço frugalmente e não refinadamente, e tosto no forno. Sirvo com o iogurte caseiro e a fruta biológica comprada no mercado, e começo o dia com um pequeno-almoço mais saudável e com menos idas ao Ecoponto Amarelo!

  • Como ainda temo aventurar-me nessa arte maior que é fazer pão manualmente, uso uma máquina do pão. Opto por comprar os ingredientes a granel ou em embalagens de papel e desenvolvi a minha própria receita de pão integral com sementes.

  • Já deixar de usar película aderente pode ser tão simples como colocar um prato em cima da taça, improvisando uma tampa… ou guardar aquela metade de tomate que sobrou num frasco, em vez de o asfixiar em camadas de plástico.

Resumindo e concluindo: passar um mês sem usar o Top 4 foi tão descomplicado que facilmente se tornará um hábito daqui para a frente. Já viver sem plástico descartável obriga a uma mudança no nosso estilo de vida, a uma mudança para um consumo consciente e solidário, conduzindo a uma reaprendizagem que se revela benéfica a todos os níveis. Durante este mês, e tanto quanto pude, retirei o plástico da equação, direta ou indiretamente. Perdi algumas batalhas (pasta dentífrica ainda em embalagem de plástico ou bebida vegetal em tetra pack, e alguns restaurantes sem alternativas a bebidas em copo ou embalagem de plástico) mas ganhei em saúde, poupei dinheiro e produzi menos lixo. Com tantas vantagens, o passo lógico será incorporar este desafio, gradual mas persistentemente, na minha rotina futura.

Uma nota final para os vários projetos portugueses e vencedores de prémios que podemos e devemos apoiar: Brigada do MarOcean AlivePlastic SunDays e Straw Patrol contribuem para que “A Minha (Nossa) Praia” seja “Plastic Free” todos os meses do ano!

O espírito Re:Costura

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A oficina de upcycling Re:Costura decorreu sábado dia 11 de Fevereiro, numa iniciativa da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal.

A Rosa tinha um conjunto saia-top que lhe estava apertado. Trouxe-o à Re:Costura com a ideia de o transformar numa camisa. Pôs-se a trabalhar com a Ana Sargento, da plataforma Fio, e em pouco tempo o conjunto inteiro estava descosido. A recostura pôde então começar.

“É importante ter um tecido de boa qualidade, como este, para reaproveitar”, explica Ana. “Quando o tecido é fraco, pode ficar estragado no processo de desfazer a peça”.

Ana Sargento estudou design de moda, mas quem primeiro a ensinou a costurar foi a mãe. Para esta apaixonada da modelagem (o desenho das diferentes partes que formam uma peça de roupa), participar na Re:Costura faz todo o sentido pelo “espírito de reaproveitamento” que guia o evento. “Os nossos avós tinham este espírito, mas foi-se perdendo”, lamenta Ana.

Ana e Rosa em plena Re:Costura
 

À volta da Rosa e da Ana, a azáfama é grande. As equipas têm uma hora e meia para elaborar e executar um projecto de recostura. Há quem esteja a substituir partes do tecido manchado de uma blusa de estimação, indo buscar a umas calças estragadas o pano em falta. Há um projecto de transformação de calças em top. E até apareceu uma Barbie à procura de peças exclusivas feitas de sobras, para enriquecer o seu guarda-roupa sustentável.

No final da hora e meia de trabalho, Rosa e Ana tinham abandonado a ideia da camisa e estavam a fazer um vestido-bata. A nova peça não ficou concluída – uma hora e meia é muito pouco tempo – mas está bem encaminhada, até à próxima sessão.

Desperdício Alimentar e Economia Circular: como dar a volta ao lixo delicioso – parte II

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Deitar comida fora? Que desperdício – de nutrientes, energia, tempo e dinheiro! Eis a nossa estratégia para reduzir o desperdício alimentar na esfera doméstica, em sete simples passos.

1. Planear. Defina um menu semanal e elabore uma lista de compras com base no que precisa (ingredientes e quantidades) e no que já tem em casa (frigorífico, despensa). Assim, evitará fazer compras de impulso e poderá estabelecer menus mais equilibrados e variados… e escusa de passar pelo stress habitual que se segue à  pergunta: “E agora o que é que eu faço para o jantar?”

2. Comprar. Sempre que possível, compre produtos:

– a granel: será mais fácil comprar as quantidades que realmente precisa, sem excedentes e sem embalagens;

– locais: para além de serem mais frescos e nutritivos, evitam-se os desperdícios e a poluição decorrentes do transporte de longa distância);

– biológicos: uma vez que são produzidos sem pesticidas, poderá aproveitar a totalidade do produto, incluindo as cascas, onde se acumulam os nutrientes (mas também os pesticidas…);

– feios e deformados: a qualidade é a mesma e o preço pode ser menor!

3. Saber. Há dois tipos de prazos de validade:  “Consumir até…” aplica-se a produtos perecíveis e é para ser levado à letra, já que consumi-los após esse prazo de validade é um risco para a saúde. “Consumir de preferência antes de…” aplica-se a produtos não perecíveis, embalados e enlatados e, tal como está na descrição, é uma “preferência”; não é imediatamente lixo e é seguro consumi-los depois desta data.

No caso das promoções “leve 2 pague 1” aplicado a produtos no fim da validade, avalie se precisa mesmo de mais quantidade ou se o barato irá sair caro…

4. Conservar e armazenar. Ao abastecer o seu frigorífico ou despensa:

– verifique a temperatura do frigorífico (1 a 5º C) e a temperatura do congelador (-15 a -18ºC);

– cumpra as instruções das embalagens dos produtos;

– faça a rotação correta dos produtos – se comprar um novo produto coloque-o atrás do mais antigo (frigorífico, despensa), para que este seja o primeiro a ser utilizado; evitará assim tanto a formação de bolores como a utilização do produto com prazo mais longo  em detrimento do produto com a validade mais curta.

5. Cozinhar. Ao preparar as suas refeições, assegure-se de que confeciona doses adequadas ao seu agregado familiar, para que não haja sobras ou excedentes; ou, caso não possa cozinhar todos os dias, faça quantidades para mais do que uma refeição e congele por doses. Na altura de servir, opte por pequenas porções: comer em demasia prejudica a saúde e conduz ao desperdício; e poderá sempre repetir se o desejar…

6. Aproveitar. No caso de se verificarem sobras ou excedentes:

– guarde-as no frigorífico, preferencialmente dentro de um recipiente de vidro transparente (poderão conservar-se até 3 dias) e terá marmita para o dia seguinte;

– congele pão às fatias, ervas aromáticas em cuvetes com azeite, fruta madura para fazer gelados ou batidos…

– faça caldos, compotas, pickles, smoothies… existem mil e uma receitas para aproveitamento de sobras, gratuitas e à distância de um clique.

7. Compostar. Se for possível, faça composto em casa ou sugira à sua junta de freguesia ou câmara municipal que aposte na compostagem comunitária (com a ajuda do ComBOA!).

Para além de tudo isto, pode juntar o útil ao agradável e desafiar os seus amigos para uma Disco Soup caseira!

Recosturar a nossa relação com o vestuário

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A indústria têxtil é uma gigantesca força de destruição do planeta. Considere os seguintes números:

– para produzir o algodão necessário ao fabrico de uma só t-shirt gastam-se 2.700 litros de água.

– os químicos usados em tinturaria causam 20% da poluição industrial da hidrosfera.

– a maioria dos 14 milhões de crianças indianas que trabalham está ao serviço de uma fábrica têxtil.

– dos 2 milhões de toneladas de roupa que o Reino Unido deita fora todos os anos, 86% acaba incinerado ou em aterro.

– mesmo a reutilização dos têxteis descartados tem consequências negativas – as roupas que deixaram de estar na moda invadem os países em desenvolvimento, asfixiando a produção local. No Uganda só 20% do vestuário vendido não é refugo do Norte.

Estas são apenas algumas pinceladas do quadro muito, muito negro descrito pelo White Paper publicado em 2015 pela plataforma Fashion Revolution. Dos recursos naturais aos direitos humanos, a indústria têxtil tem um impacto tão feroz sobre o planeta que a necessidade de alterar radicalmente o seu funcionamento se impõe como uma evidência.

Nos dias que correm, não há gigante do retalho têxtil (H&M, Inditex) que não publicite os seus projetos de sustentabilidade. Sem ser preciso desconfiar da boa-fé das grandes marcas, é seguro afirmar que o desafio é enorme. Um exemplo: a reciclagem têxtil, no seu estado tecnológico actual, é bastante ineficaz. Tratar mecanicamente as fibras retira-lhes qualidade, gerando pouco valor – o resultado acaba muitas vezes como enchimento de sofás; a reciclagem química, ainda embrionária, consegue recuperar a fibra com a sua qualidade original mas apenas se o tecido for composto por um só tipo de fibra. As mesclas não se conseguem reciclar.

Mas para grandes problemas, grandes oportunidades. As organizações que conseguirem responder a este ou outros desafios de um têxtil que se quer verde e social vão estar a garantir a sua longevidade. As políticas públicas têm um papel importante no incentivo à economia circular, escreve o The Guardian (a Dutch Aweareness, que faz roupa em poliéster totalmente reciclável, é um exemplo de inovação que contou com um empurrãozinho da União Europeia). Mas têm de ser as próprias marcas a romper com os modelos de negócio estabelecidos, o que se torna difícil num ramo em que os diferentes elos da cadeia de abastecimento são tão interdependentes.

Em Portugal praticamente não existe quem recicle têxteis. “Não há nenhuma empresa portuguesa com maior visibilidade que tenha enveredado por este negócio, tornando a reciclagem uma componente importante do que produz”, confia ao Expresso Paulo Vaz, diretor-geral da Associação do Têxtil e Vestuário de Portugal. No entanto, já há estudos a dizer que a indústria têxtil portuguesa devia estar a olhar para esta oportunidade, servindo-se da sua organização em clusters para agarrar o desafio a várias mãos.

A reciclagem não é, porém, nem a única nem a melhor maneira de responder aos impactos negativos da indústria têxtil. A Patagonia, estandarte de boas práticas no que a sustentabilidade têxtil diz respeito, não apenas recicla mas concebe as suas roupas para durarem (oferecendo uma garantia vitalícia), serem reparadas e serem revendidas (tendo para isso criado a plataforma Worn Wear). As lojas de roupa em segunda mão prestam um excelente serviço de circularidade têxtil (sendo um prazer andar ali à cata de tesouros, como o Macklemore bem sabe). Ainda pouco conhecido, o aluguer de roupa (como praticado por exemplo pela Rentez-Vous) apresenta-se como um prometedor modelo de negócio.

A plataforma Fashion Revolution considera que a moda mais sustentável do mundo é aquela que já temos no roupeiro. E se queremos refrescar um bocadinho o nosso aspeto, que tal fazer roupa nova a partir daquelas peças que estão meio estragadas ou não nos apetecem tanto? É esse o conceito da Re:Costura, oficina de upcycling a decorrer sábado dia 11 de Fevereiro e que é uma iniciativa conjunta da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal, com a ajuda da Slow Repurpose. (Para provar que do velho se pode fazer não apenas novo mas terrivelmente apetecível, basta percorrer o blog Trash to Couture.)

 

 

Desperdício Alimentar e Economia Circular: como dar a volta ao lixo delicioso

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Deitar fora comida deixa-nos a todos com uma indigestão de culpa, principalmente quando ressoa na nossa memória a frase “tanta gente a passar fome e tu não comes o que está no prato!”. Para apaziguar o estômago e a consciência, preparamos um chá de boas intenções futuras, mas assim que o caixote do lixo se fecha, dissipam-se os vapores deste problema…
 
Se os impactos sociais são há muito conhecidos e reconhecidos (mas nunca resolvidos), os impactos económicos foram recentemente estimados pela FAO e pela União Europeia: um terço de toda a produção alimentar humana é desperdício.Na Europa, cerca de 88 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados anualmente, com um custo associado de 143 biliões de euros. Em Portugal e por ano, 1 milhão de toneladas de alimentos são deitados para o lixo, o que levou à publicação de um conjunto de novas medidas no âmbito da Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar.

E num tempo em que se fala tanto das alterações climáticas, sabia que o desperdício alimentar é responsável por uma emissão de gases de efeito de estufa equivalente à da rede global de transportes terrestres? Segundo a FAO, se o Desperdício Alimentar Mundial fosse um país, seria o terceiro emissor destes gases, logo a seguir à China e aos Estados Unidos, contribuindo para o aquecimento global… Perdeu o apetite?

A situação é, porém, reversível. Reintegrando os resíduos na economia, enquanto recursos, e maximizando a eficiência destes ao longo de toda a cadeia de valor, obtém-se aquilo a que a Economia Circular chama “ciclo fechado”: nada se perde, tudo se transforma, num perpétuo reaproveitamento amigo da natureza. Este modelo económico, que quer pôr fim a todos os tipos de desperdício, constitui um contributo promissor para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para 2030, dos quais uma das metas é “reduzir para metade o desperdício de alimentos per capita a nível do retalho e do consumidor e reduzir as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e de abastecimento”.

Para responder a este desafio surgiram em Portugal várias iniciativas que trabalham para evitar os desperdícios ao longo de toda a cadeia de abastecimento alimentar, na exploração agrícola, nas lojas, nos restaurantes:

  • A Re-food e a Dariacordar/Zero Desperdício são associações sem fins lucrativos que, voluntariamente, recolhem os alimentos (sobras de refeições, alimentos que se aproximam do fim da data de validade) a partir de uma vasta rede de dadores (supermercados, restaurantes, cafés, hospitais, hotéis) para depois os distribuir pelas famílias carenciadas.

  • A cooperativa Fruta Feia trabalha diretamente com os agricultores para escoar as frutas e legumes que não cumprem a Normalização, ou seja, o conjunto das regras de calibre, cor e formato. Ironicamente, esta Normalização foi imposta pela UE, que agora se vê soterrada em produtos que ensinou os consumidores a ver como “esteticamente impróprios para consumo”…

  • O GoodAfter.com é “um supermercado online dedicado à venda de produtos que se encontram perto do fim do prazo de consumo preferencial, ou mesmo ultrapassado esse prazo”. Desta forma tenta contrariar uma interpretação generalizada e errónea da expressão «consumir de preferência antes de» como sendo o prazo de validade a respeitar, o que leva a que se deitem fora alimentos comestíveis e seguros. Mais uma vez, a UE terá de clarificar e melhorar a sua própria legislação…

  • O projeto Muita Fruta pretende mapear, recuperar, cuidar e usar de modo sustentável as inúmeras árvores de fruto da cidade de Lisboa. Para tal, tem vindo a realizar um conjunto de atividades para combater o desperdício: workshops para podar árvores, confeção de compotas, jantares com chefs, etc.

Para que esta lista (não exaustiva) fique mais completa, só falta apostar na tecnologia e criar uma aplicação portuguesa semelhante à Too Good to Go, ResQ Club ou Gebni. Estas aplicações permitem aos restaurantes divulgar online as refeições que não foram vendidas às horas de almoço/jantar e que podem ser adquiridas posteriormente a preços reduzidos.

Ok. Faltamos nós, os consumidores. Cabe-nos a maior fatia, mais de 50% do desperdício alimentar de acordo com os dados da União Europeia. A boa notícia é que podemos reduzir facilmente esta percentagem, poupando dinheiro e protegendo a nossa saúde assim como o ambiente. Amanhã publicamos a nossa estratégia doméstica para evitar o desperdício, em sete etapas!

Junte-se à Circular Economy Portugal e ao Impact Hub no dia 23 de Fevereiro às 19h para falar de Desperdício Alimentar: causas, implicações, soluções.