Lisboa, 2030: a vida numa cidade circular

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A Economia Circular e a ideia de “fechar os ciclos” podem parecer conceitos abstratos. Mas a realidade é que já existem muitas iniciativas circulares por aí, provando que a economia circular está a acontecer (e não vai fazer marcha atrás). Para agarrar bem o conceito, perceber toda a sua força, propomo-nos neste artigo responder à seguinte questão: como será a Lisboa de 2030, quando as ideias circulares promovidas pela CEP e por muitos outros já tiverem tido tempo de se entranhar na cidade? Vamos fechar os olhos e imaginar…

Comecemos pela habitação. Em 2030 vamos viver em casas passivas que consomem muito pouca energia e até são capazes de a produzir, através, por exemplo, de painéis solares no telhado (instalados, p.ex., por Coopérnico). Nestas casas as “águas cinzentas” do chuveiro e do lavatório são filtradas e reutilizadas. Gastamos muito menos água.

Os condomínios são muito mais do que uma série de pessoas a viver no mesmo prédio: são centros de partilha e de boa vizinhança. Muitos edifícios terão uma lavandaria comum, uma pequena oficina com ferramentas (inspirada pela Library of Things), um atelier multiusos, tudo partilhado pelos condóminos.

Vamos até lá fora. A cidade está tão diferente! No lugar de alguns baldios e ruínas nasceram jardins e hortas (ex. Horta do Baldio). Há associações de hortelãos a cultivar legumes e a recolher resíduos orgânicos domésticos para compostagem (com apoio do ComBOA!). O feijão-verde da nossa sopa é produzido ali na esquina (e a alface da salada vem do sistema de hidroponia vertical instalado na marquise!). A agricultura urbana tornou-se um lugar-comum, tomando conta de um sem-número de canteiros e inventando novas maneiras de podermos comer a cidade (na foto acima: sistema de cultivo urbano desenvolvido por Ecocenter e Biovivos).

Por todo o lado há mercados de legumes orgânicos produzidos localmente (ex. Agrobio) e cooperativas de distribuição de comestíveis regionais (ex. Boa Colaborativa). Os supermercados vendem a maioria dos produtos a granel (ex. Maria Granel). Com tão pouco plástico para desembrulhar e com a recolha porta-a-porta de restos orgânicos, os nossos caixotes do lixo acumulam tão singelas quantidades que “levar o lixo” é coisa que raramente fazemos.

A Lisboa de 2030 tem mais árvores (em parte, graças ao empenho da Plataforma em Defesa das Arvores). O ar é mais limpo. O verão é mais fresco. A biodiversidade urbana aumentou. Os flamingos avistam-se com mais e mais frequência na zona da Expo, e às vezes vêem-se ouriços-cacheiros a atravessar a rua de uma horta para outra.

Já ninguém compreende como é possível que o automóvel tenha dominado a cidade durante tanto tempo. Lisboa é agora amiga dos peões e dos ciclistas (graças entre outros ao empurrão da MUBi). Os transportes públicos tornaram-se mais fiáveis, baratos e funcionais. Graças à infraestrutura integrada de transportes, é fácil combinar comboio com bicicleta ou autocarro eléctrico, e há sempre alternativa aos combustíveis fósseis. A cidade está menos barulhenta, menos poluída, menos perigosa, mais amiga das crianças e das pessoas com mobilidade reduzida.

Na Lisboa circular de 2030, também os objetos circulam. Foram concebidos para durar, e por isso estão aí para as curvas. E em caso de acidente, é fácil repará-los. Quando a torradeira se avaria, levamo-la ao Repair Café. As roupas que deixamos de usar, levamo-las à Re:Costura onde costureiros amadores e profissionais as reutilizam e transformam.

Os objetos também circulam porque os partilhamos numa economia colaborativa. Livros e filmes abundam nas bibliotecas comunitárias, para já não falar das públicas. A vida desmaterializou-se: certas coisas que antes consumíamos sob forma de objeto são agora serviços, como o carro que tínhamos e que entretanto vendemos para subscrever um sistema de partilha de automóveis (ex. Citydrive), poupando centenas de euros por ano. Ah sim: na Lisboa de 2030, gastamos menos dinheiro.

A Lisboa de 2030 é ainda mais cultural, criativa e estimulante. Há fablabs espalhados pelo país, onde toda a gente pode inventar e fazer objetos a partir de plástico reciclado (com Precious Plastics) ou outros recursos secundários. E fácil montar um grupo de teatro amador e dar espetáculos nos centros culturais de bairro (ex. Centro Mário Dionísio e, na foto, Pessoa e Companhia).

A educação está viva e presente no tecido da cidade. As escolas dos nossos filhos deixaram de ser lugares fechados. Expandiram-se, primeiro para a rua, cortando o trânsito para fazer parques infantis. As crianças fazem voluntariado nas instituições do bairro. A comunidade utiliza a instalações da escola para os seus projetos, envolvendo os alunos e professores.

Lisboa já é uma cidade linda, mas quanto mais circular se tornar, mais gosto vai dar viver nela. Que o futuro chegue depressa!

Economia Circular: a melhor aliada da descarbonização

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O Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 esteve em consulta pública até final de Fevereiro. A CEP analisou-o e submeteu o seu parecer. Partilhamos agora uma síntese dessa reflexão, tentando revelar a relação forte, mas nem sempre evidenciada, entre economia circular e descarbonização.

O que é o RNC 2050?

Na COP22, em 2016, o governo português assumiu o compromisso de descarbonizar o país até 2050. A neutralidade carbónica significa o  equilíbrio entre as emissões antropogénicas de gases com efeito de estufa e sua absorção por sumidouros, tais como as florestas e os oceanos.

O Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 traça três cenários para Portugal, aos quais chamou, com apurado sentido de metáfora, “Fora de Pista”, “Pelotão” e “Camisola Amarela”. O cenário fora de pista representa basicamente uma trajetória “business as usual” em que nada de fundamental se altera e em que, consequentemente, a neutralidade não é atingida (ainda que as emissões baixem em relação às atuais). Os outros cenários correspondem a trajetórias “tecnicamente exequíveis, economicamente viáveis e socialmente aceites” que permitem atingir (pelotão) ou até superar (camisola amarela) o objetivo de zero carbono em 2050. O documento detalha a evolução dos quatro setores mais relevantes para a matéria (Energia, Transportes, Resíduos, Agricultura/Florestas/Uso do solo), sendo que a economia circular é transversalmente incorporada na modelização.

O RNC 2050 demonstra a exequibilidade do resultado líquido zero emissões, serve de guia para a elaboração de políticas públicas e de bitola para acompanhar e interpretar os desenvolvimentos do país em matéria ambiental e socioeconómica.

Dispor de um documento como o RNC2050 é extremamente valioso para Portugal. As observações que fazemos vão no sentido de maximizar o impacto positivo que este instrumento pode vir a ter.

1. Oportunidade perdida: modelação de políticas públicas

A trajetória para a obtenção da neutralidade carbónica é feita de escolhas, essencialmente políticas, e não só de resposta a fatores externos, como sejam a evolução tecnológica ou as preferências dos consumidores. O RNC2050 peca por se focar nestes últimos. Entendemos que o RNC2050 teria sido uma boa oportunidade para se compreender o impacto de medidas como o preço mínimo de CO2 em determinados setores, incentivos fiscais à circularidade da economia, transportes públicos exclusivamente elétricos até 2030 ou o fim da utilização do gás em meio residencial até 2030. Por não considerar o impacto das políticas públicas, o RNC2050 apenas reflete uma parte da trajetória possível para a neutralidade carbónica, ficando por demonstrar os impactos positivos ou negativos que determinadas medidas terão sobre a mesma.

2. Maior ambição no período 2019-2025

Consideramos que evoluções mais aceleradas no período 2019-2025 são possíveis em alguns setores. A viabilidade técnica, as inovações em curso e os potenciais efeito de políticas públicas validariam pressupostos mais ambiciosos nos domínios da energia, mobilidade e edificado:

2.1. Energia

Na redução de emissões a atingir em 2030, o encerramento das centrais a carvão de Sines e do Pego tem um peso considerável (menos 11 Mton de CO2/ano, ou seja, 16,2% das emissões nacionais). De acordo com o mais recente Relatório de Monitorização da Segurança de Abastecimento, a segurança energética do país não é posta em causa com o fecho destas centrais. Isto equivale a dizer que há condições para avançar no curto prazo e que dessa feita as reduções a alcançar em 2030 poderiam ser alcançadas já em 2025.

Entendemos que o RNC2050 poderá considerar a instalação de uma maior capacidade de energia solar durante a próxima década, alinhando os seus objetivos com aqueles inscritos no Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC). O amadurecimento tecnológico (ex: H2 ou baterias) e o surgimento de novos modelos de negócios na área da flexibilidade de redes permitem projetar maior evolução na expansão da capacidade de energia renovável, sem que tal coloque em causa a segurança do abastecimento.

2.2. Mobilidade

Áreas metropolitanas. Ao nível das áreas metropolitanas, o RNC2050 poderia ter modelado um maior aumento da utilização do transporte público. Tal poderá ser a consequência de programas de redução de tempos de percursos entre pontos de elevada procura (ex: resultante, por exemplo, do investimento em infraestruturas), ou de redução tarifária (como aquela a implementar em Abril de 2019). Por este motivo, entendemos que a evolução da procura do transporte público tem mais potencial do que aquela modelada no RNC2050.

Ligações interurbanas. O aumento da competitividade do modo ferroviário, através de ligações de velocidade elevada entre cidades de média dimensão, constitui um importante contributo para a descarbonização dos transportes, e representa um potencial de aumento da procura do modo ferroviário não incluído no RNC2050. Dado que o RNC2050 se baseia na evolução da procura considerada no Ferrovia2020, um programa orientado para as ligações de mercadorias, entendemos que deveriam ter sido usado outros pressupostos.

3. Aspetos problemáticos

3.1. Aviação internacional não foi incluída no balanço carbónico.

O RNC2050 apenas considera as emissões de aviação correspondentes a voos domésticos, o que é uma consequência da arquitetura do acordo de Paris. Contudo, a aviação internacional tem tido um aumento muito elevado de emissões (ver figura 2). No seu conjunto, a aviação doméstica e internacional teve um aumento de 30% entre 2015 e 2018. Projetando, de forma conservadora, um aumento anual de 3-5% de emissões da aviação para o período 2018-2030 (para o qual o eventual aumento da capacidade aeroportuária na zona de Lisboa também dará o seu contributo), podemos concluir que em 2030 o setor da aviação só será ultrapassado em emissões pelo setor da indústria e pelo restante setor dos transportes. Ficando fora do roteiro, este aspeto passa despercebido – quando haveria muito a ganhar considerando e incentivando a ferrovia de alta velocidade como alternativa.

3.2. O RNC2050 não considera o impacto carbónico do consumo de produtos importados.

Ora estes têm uma pegada carbónica associada. As reportadas reduções de emissões dos últimos anos na Europa são nitidamente menos acentuadas se se tiver em conta as importações. É importante expor este aspeto no  RNC2050 a fim de prevenir eventuais deslocalizações de emissões na trajetória portuguesa.

3.3. Floresta – captação de emissões sobrevalorizada.

Entendemos que a capacidade de sumidouro está sobreavaliada no RNC2050. Tendo presente o aumento do risco de incêndio florestal provocado pelas alterações climáticas, seria prudente considerar valores mais conservadores para a capacidade de sumidouro da floresta portuguesa.

4. Não há neutralidade carbónica sem economia circular

Nem sempre são claros neste roteiro os pressupostos assumidos pelos autores em termos de economia circular, mas ela é evocada em todas as áreas: a produção total de resíduos só diminui acentuadamente porque são modelizadas “medidas de incentivo ao combate ao desperdício alimentar”; o edificado gera menos emissões porque se projetam “partilha e eficiência nos serviços”; o impacto da indústria do cimento diminui porque se prevê a substituição de parte da matéria-prima virgem por resíduos de construção e demolição; o aumento da capacidade de incineração de resíduos faz parte do cenário “fora de pista” (mas os projetos de incineradoras para o Porto e São Miguel continuam em cima da mesa! É preciso eliminá-los já).

Está demonstrado que a extração de recursos é responsável por metade das emissões globais de CO2 e nesse sentido a circularidade é fundamental para a descarbonização.

Alguns dos pressupostos assumidos no roteiro surpreenderam-nos por ficarem aquém do potencial da economia circular. Por exemplo: na indústria do vidro projeta-se um aumento importante do vidro reciclado – mas não se fala em reutilização das garrafas, que seria muito mais eficaz. Na indústria cimenteira, a utilização de combustíveis derivados de resíduos (CDR) em vez de fósseis é apontada como medida de descarbonização: assume-se equivalência entre CDR e biomassa, quando os CDR têm um teor de biomassa de 60% (incluindo-se nesta percentagem têxteis e borracha).

5. E agora? Os passos seguintes para o RNC2050

O RNC2050 baseia-se num conjunto de cenários, cuja implementação dependerá em grande medida da ambição do poder político e da sua capacidade de intervenção e de articulação junto dos diferentes setores da sociedade. Assim, parece-nos importante complementá-lo das seguintes formas:

5.1. Lei de Bases do Clima.

É importante traduzir as trajetórias do RNC2050 numa agenda política de médio/longo prazo com metas e medidas concretas. A inclusão de metas setoriais de CO2 numa Lei de Bases do Clima acelerará a implementação do RNC2050, e aumentará a previsibilidade destas trajetórias junto dos agentes económicos e decisores.

5.2. Estrutura de gestão/monitorização do RNC2050.

Seria desejável instituir uma entidade que assegure funções de aconselhamento ao Governo e legisladores, de monitorização do processo, e de análise da compatibilidade entre as diferentes políticas públicas e as metas do RNC2050.

A neutralidade carbónica é uma necessidade, um dever, uma urgência! Nas palavras da investigadora Júlia Seixa, co-autora do RNC2050 e membro do Conselho Consultivo da CEP:

“Não sabemos como será viver num Planeta com uma temperatura média superior a 2ºC, pois representará uma rota totalmente nova para a biosfera, e seguramente perigosa para a humanidade. A produção de alimentos, o ciclo da água e tudo que a biosfera nos fornece para a vida que temos levado, estará em causa. Não imagino as consequências sociais e económicas de um futuro com estas características. Governos e empresas devem rodear-se de ciência, para informar as suas decisões pois, em última análise, são eles os responsáveis morais pelo estado do Planeta que deixaremos às futuras gerações. Com o que sabemos hoje, já não há margem para erros!” (fonte)

(esta artigo foi redigido por Artur Patuleia, com a colaboração de Lindsey Wuisan, Andreia Barbosa e Cátia Godinho)

Co-habitação: novos modelos de alojamento para a cidade verde e inclusiva

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A co-habitação (co-housing no mundo anglo-saxónico, habitat participatif no espaço francófono) constitui um modelo alternativo de alojamento em que a partilha e a participação são valores centrais. Os anos 2000 conheceram um crescimento deste tipo de projetos na Europa, num espírito de idealismo, ecologia e reapropriação da cidade.

Não é Lixo, é Vida

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A compostagem de resíduos orgânicos representa uma alavanca fundamental para a transição ecológica, com benefícios económicos e ambientais de peso. Algumas cidades europeias, como é o caso de Milão, estão a demonstrá-lo. Lisboa ainda está tem um longo caminho a percorrer nesta matéria, mas as atenções começam a despertar para o enorme potencial da compostagem.

Esta informação, retirada do Plano Municipal de Gestão de Resíduos 2015, coloca Lisboa no grupo das metrópoles europeias que pouco fazem com os resíduos orgânicos que produzem. São a maioria. Muitas, Lisboa incluída, recuperam parte dos restos biodegradáveis dos “grandes produtores” (restaurantes, hotéis, cantinas escolares…), submetendo-os a “valorização energética” (produção de biogás) e/ou “valorização orgânica” (transformação em composto). Mas os resíduos domésticos ficam por enquanto fora do circuito. Esta é uma situação que está a mudar e tem de mudar, se é para levar a sério o Pacote de Economia Circular lançado em 2015 pela União Europeia. A Europa quer reciclar 65% dos resíduos que produz até 2030. Actualmente está em 43% (Lisboa em 20%). Sendo a fração orgânica tão relevante nas contas gerais do lixo que produzimos, o destino a dar aos nossos restos alimentares torna-se uma questão fulcral.

Ciclo Orgânico

Os bio-resíduos não representam apenas a maior fatia do nosso lixo. São também a mais valiosa. Factos básicos da vida que todos aprendemos (e provavelmente esquecemos) nas aulas de Ciências da Natureza: as plantas precisam de nutrientes para poderem crescer. Vão buscar o carbono, oxigénio e hidrogénio ao ar e à água, e depois azoto, fósforo, potássio e outros, ao solo. O problema é que a agricultura intensiva que praticamos foi esgotando os nutrientes presentes no solo. Hoje, grande parte dos alimentos produzidos no mundo depende de fertilizantes artificiais. Mas a mineração também está a revelar os seus limites: estima-se que a extração de fósforo atinja o seu pico em 2030 e as reservas se esgotem daqui a 50 ou 100 anos. Com o peak phosphurus a ameaçar tornar caríssimo o fósforo, a busca de soluções alternativas torna-se urgente.

É aí que a compostagem pode ter um papel preponderante: captar os resíduos orgânicos a nível local/ regional, compostá-los e enriquecer os solos com esse composto permite devolver (parte dos) nutrientes aos seus ciclos naturais – o que é essencial para a sustentabilidade da agricultura. A seca que estamos a viver atualmente em Portugal (e que as alterações climáticas prometem acentuar) deveriam bastar para fazer soar o alarme do desperdício que o não-aproveitamento dos resíduos orgânicos (eficazes na humidificação do solo) representa.

O caso de Milão

A grande maioria dos habitantes de Lisboa não tem outra opção senão deitar as suas cascas de batata para o lixo comum. Há excepções: o nosso colega Filipe Silveira (do projeto ComBOA!, ver abaixo) anda sempre com um contentorzinho de orgânicos atrás, e quando passa por uma horta urbana, despeja no compostor – mas suspeitamos que este seja um comportamento altamente invulgar.

Em Barcelona, por exemplo, existem ecopontos na rua, nos quais o cidadão pode depositar os seus resíduos diferenciados, incluindo orgânicos. Mas esta abordagem não é das mais bem-sucedidas: a taxa de contaminação (presença de resíduos não conformes) é alta (25%), o que tem consequências na quantidade e qualidade final do composto produzido.

Vale a pena olhar para o exemplo de Milão. Desde 2014 que todos os residentes (1,3 milhões) dispõem de um serviço e de recolha porta-a-porta de restos orgânicos, e a cidade é uma das que melhores resultados tem em termos de recolha seletiva e reciclagem a nível europeu. Está no bom caminho para atingir a meta europeia (vai em 54% de resíduos reciclados) e consegue captar, por ano e por habitante,100 quilos de restos orgânicos competentemente separados.

 

Como é que isto acontece na prática? Michele Giavini, senior expert no Conzorcio Italiano Compostatori(associação para a produção de composto e biogás) partilhou os pormenores em conversa com a CEP. Para implementar o sistema foi organizada uma campanha porta a porta na cidade inteira. Cada família recebeu gratuitamente um pequeno contentor (concebido para facilitar o arejamento, evitando maus cheiros) e um rolo de sacos biodegradáveis. As cozinhas ficaram assim equipadas para o trabalho de separação de orgânicos. Quando o saco fica cheio, coloca-se no contentor situado na parte comum do imóvel (80% das pessoas vive em prédios). O contentor é esvaziado duas vezes por semana pelo serviço de recolha. Nada muito diferente da recolha seletiva que existe em Lisboa, mas com um contentor suplementar e duas recolhas adicionais. Quando o rolo de sacos biodegradáveis chega ao fim, cabe às famílias comprarem mais.

Segundo dados do projeto Milano Recycle City, a qualidade dos restos alimentares assim recolhidos é muito boa, com apenas 5% de contaminação de outros materiais. Fatores importantes são o controlo rigoroso (todas as manhãs há 30 inspetores nas ruas), o modo de recolha (porta-a-porta) e o trabalho de comunicação que precedeu a medida e a tem acompanhado. A separação de orgânicos não é apenas uma tarefa suplementar que se pede às famílias, exige também alguma competência no modo de execução.

Boas práticas em Portugal

A nível nacional, quem mais dá cartas em matéria de resíduos orgânicos e compostagem é a Lipor. A Lipor é a associação intermunicipal responsável pela gestão dos resíduos na área dos municípios que a integram (Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde). “A compostagem está no ADN da Lipor”, sustenta Susana Freitas, da Unidade de Educação e Formação Ambiental. A história da associação assim o confirma: a Lipor nasceu da aquisição de uma empresa privada de Ermesinde, a Fertor, que produzia um fertilizante do mesmo nome a partir dos resíduos indiferenciados da região. Estávamos no início dos anos 80, Portugal ainda não tinha aderido à CEE e os padrões de consumo dos portugueses eram bem diferentes. “Na altura era viável produzir fertilizante a partir do lixo comum, uma vez que 90% era matéria orgânica”, resume Susana Freitas. Veio depois a revolução do consumo com seu rasto de embalagens e descarte fácil. O Fertor, resultante de um processo TMB (Tratamento Mecânico e Biológico) foi descontinuado em 2001 por já não ser possível assegurar a qualidade de outrora.

(Foto: Lipor)

Para além da valorização energética e orgânica dos resíduos de grandes produtores (para os quais, ressalve-se, não existe qualquer obrigatoriedade em separar orgânicos), a Lipor promove a compostagem doméstica através do programa “Terra a Terra”, que alia formação e oferta de um compostor (já foram dados mais de 10 mil). A compostagem caseira, reconhece Susana, não tem potencial para envolver muita gente (é preciso ter pelo menos um bocadinho de terreno para colocar o compostor, cuja base está em contacto direto com o solo). Mas foi o caminho escolhido pela Lipor para realizar a sua “missão de educação ambiental” (que se declina em vários outros projetos como a Horta da Formiga ou a Academia Lipor), na tentativa de preparar terreno nas consciências dos munícipes para coisas mais ambiciosas no futuro. É que em 2008 foi tentado, na Maia, um projeto de recolha porta-a-porta de orgânicos. “Os resultados foram fracos. As pessoas não percebiam a diferença entre lixo orgânico e indiferenciado”, explica Susana Freitas. Nove anos depois está em preparação um novo piloto – com mais hipóteses de sucesso, acredita Susana, dado o trabalho desenvolvido e o disparar da atenção global para com os problemas ambientais. 

Soluções Estruturais

Se é certo que está em marcha, a nível europeu, um movimento inequívoco no sentido de promover a reciclagem e especificamente a compostagem, “a legislação existente ainda não é suficiente”, considera Stefanie Siebert, directora executiva da European Compost Network, rede europeia de organizações de gestão de resíduos orgânicos. “A nível europeu existe apenas a obrigação de reduzir a presença de resíduos orgânicos em aterro. Isto não chega para favorecer a opção pela reciclagem de bio-resíduos”, explica. Para Siebert é evidente a relação entre legislação adequada (em países como a Áustria, Holanda, Alemanha) e resultados. “A Europa precisa de tornar a separação de bio-resíduos obrigatória”, defende. “Os municípios queixam-se de que a recolha seletiva de orgânicos fica cara, mas não é verdade. Há muitos estudos que mostram o contrário, porque se os bio-resíduos forem separados, decresce o volume de lixo indiferenciado a recolher e tratar. E a compostagem é a forma mais barata de tratar bio-resíduos”, avança Siebert.

Segundo Michele Giavini, implementar e gerir um esquema de recolha porta-a-porta de orgânicos não trouxe custos adicionais ao orçamento municipal de Milão. É que compostar (70 euros/tonelada) fica mais barato do que incinerar ou pôr em aterro (100 euros/tonelada). Esta diferença prende-se com a forte taxação da incineração e aterro na Lombardia, uma medida que Giavini gostaria de ver implementada a nível europeu, para favorecer a compostagem.

Compostagem numa Economia Circular

A relação entre cascas de batata de o futuro da vida na Terra pode não ser questão que dê muito que pensar ao lisboeta comum, mas há uns quantos que andam a matutar seriamente nisso e a tentar fazer a coisa acontecer. A CML vai avançar para a recolha seletiva de orgânicos em 2019, devendo ser abrangidos numa primeira etapa 6700 fogos (cerca de 3% do total). Em paralelo, por forma a “reduzir na fonte” a quantidade de resíduos a recolher, vai ser promovida a compostagem doméstica (com a distribuição, já em 2018, de 4000 compostores) e comunitária. Com estas e outras medidas (nomeadamente na prevenção do despedício alimentar) o município está a desempenhar um papel pioneiro em matéria de economia circular no âmbito do projeto europeu FORCE – Cities Cooperating For Circular Economy.

Por seu lado, a CEP lançou o ComBOA!, iniciativa que pretende ensinar, descomplicar e enraizar a prática da compostagem em Lisboa e arredores, a partir das hortas urbanas existentes e em colaboração com os hortelãos e horteloas que as cultivam. O ComBOA! está já a ser implementado nas hortas de S. João (foto) e do Texugo, no concelho de Almada, e prepara-se para experimentar, na freguesia de Campolide em Lisboa, um sistema de troca de resíduos orgânicos por moeda local (numa extensão do já muito falado projeto “Pago em Lixo”). Para conhecer o impacto destas iniciativas nas atitudes e práticas dos lisboetas, vai ser preciso esperar.

Uma coisa é certa: mudar integralmente a relação que temos com os resíduos orgânicos que produzimos é um imperativo – económico, ecológico, e em breve, possivelmente, legal. Aquilo a que chamamos lixo representa um recurso essencial para a sustentabilidade da vida na terra, e quanto mais cedo agirmos em consequência, mais rapidamente colheremos os benefícios.

 

O meu “Plastic Free July”

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No mês passado decorreu o desafio PLASTIC FREE JULY (Julho sem plástico). Esta iniciativa, anual e internacional, pretende sensibilizar as pessoas para o problema da poluição nos oceanos, desafiando-as a alterar os seus hábitos de consumo através da redução do uso do plástico, principalmente o descartável. 

Importa, em primeiro lugar, saber porque é que desafios como este são, infelizmente, necessários. Para tal, recomenda-se a leitura de artigos recentes no jornal The Guardian ou na revista Science, e a visão de pequenos vídeos informativos disponíveis online, como Our Plastic, Our ProblemOpen Your Eyes ou Midway, a Plastic Island, que ilustram rápida mas eficazmente este oceânico problema. Para quem tem Netflix, o documentário A Plastic Ocean é obrigatório, tal como são as exposições e atividades que a Plasticus Maritimus vai promovendo ao longo do país. Segundo a União Internacional de Conservação da Natureza (UICN), “50 a 80% do lixo nas zonas costeiras do planeta é plástico”. Imersa em milhares de razões, resolvi aceitar o desafio e experimentei viver sem plástico descartável durante 1 mês.

Comecei com o Top 4 (sacos de plástico, garrafas e copos descartáveis de plástico, palhinhas):

  • Para substituir o Inimigo Público Nº1, os sacos de plástico, tenho sempre na mala dois sacos, um de pano e outro descartável, ambos reutilizáveis. Para os dias de mercado de frutas e hortícolas, uso uma ceira de palha.

  • A compra de uma garrafa de água reutilizável tem um impacto positivo muito significativo no ambiente, evitando que inúmeras garrafas e copos de plástico descartáveis tenham como destino a incineração, aterro ou downcycling. A minha garrafa azul está presente sempre que a sede aperta e tem ainda a vantagem adicional de ser feita de aço inoxidável, não contendo os desreguladores endócrinos Alumínio e BPA.

  • Para deixar de usar palhinhas, passei a dizer “Não quero palhinha!” antes de me trazerem o meu smoothie ou batido preferido (em copo de vidro, claro!).

Seguidamente, continuei o desafio focando-me nas 4 principais áreas onde poderia reduzir o consumo de plástico, dentro e fora de casa: 1) Compras; 2) Higiene Pessoal, 3) Limpeza da Casa e 4) na Cozinha.

No primeiro capítulo, fui às compras a granel: os mercados são uma das melhores formas de comprar frutas e vegetais, biológicos e locais, sem sacos ou caixas de plástico. Outra das formas, é receber cabazes biológicos em casa e, caso tragam embalagens de plástico, devolver diretamente aos produtores, contribuindo assim para a sua reutilização.

Felizmente, é cada vez maior a lista de produtos de mercearia que se podem comprar a granel, em lojas de bairro, mercados, supermercados biológicos ou não: leguminosas, cereais, frutos secos, sementes, chás, azeitonas, tremoços…. Só temos que ter o cuidado de escolher os locais de compra que disponibilizam sacos de papel ou, para os mais avançados em Desperdício Zero, levar as próprias embalagens (sacos de tecido e/ou frascos de vidro).

Terminei as minhas compras relembrando tempos antigos: fui ao baú buscar o saco do pão bordado pela minha avó e procurei uma padaria perto de mim, onde pudesse comprar pão a granel. Pão a sério, daquele que só tem 4 ingredientes (farinha, água, fermento e sal), e que não sabe a plástico nem é embalado em plástico!

No capítulo da Higiene Pessoal, fiz as seguintes alterações:

  • A utilização de sabonete sólido em vez de gel de banho, sabonete líquido e até tónico facial, é uma das substituições mais fáceis e mais eficazes de concretizar (eliminação de 3 embalagens de plástico!). É possível encontrar sabonetes sem embalagem de plástico nem substâncias químicas prejudiciais à nossa saúde (por exemplo, parabenos e triclosan).

  • Passei a usar óleo de côco… na casa de banho! Como é geralmente vendido em frasco de vidro, é perfeito para substituir o creme hidratante corporal e facial e até o batom do cieiro, geralmente comercializados em embalagens de plástico. Desta forma, poupo dinheiro e ainda evito os microplásticos normalmente presentes nos cosméticos.

  • Já há muito tempo que não uso cotonetes: para além de me terem sido desaconselhadas pelos otorrinolaringologistas na limpeza dos ouvidos, as cotonetes são dos resíduos mais encontrados nos oceanos e praias, segundo a Associação Portuguesa do Lixo Marítimo. Ao serem atirados para a sanita, estes bastões de plástico acabam por ser arrastados através da rede de esgotos até ao mar.

Já no capítulo da Limpeza da Casa, o vinagre branco revelou-se um produto 3 em 1, substituindo eficazmente o lava tudo para o chão, limpa vidros e multiusos. Apesar de não ter químicos nefastos, é vendido numa embalagem de plástico… A alternativa mais ecológica passa pelos dispensadores de detergentes a granel com embalagens reutilizáveis para a limpeza da casa, roupa e louça, disponíveis nalgumas lojas de produtos biológicos.

E, finalmente, o mais apetecível e saboroso capítulo, Cozinhar em Casa:

  • O takeaway deveria chamar-se “throwaway”, se pensarmos nas pilhas de caixas, talheres, copos e sacos, todos de plástico, que acompanham as refeições que encomendamos quando falta o tempo, paciência, inspiração… O segredo, uma vez mais, é simples e ganhamos em várias frentes: se definirmos um plano semanal de refeições (mais saudável), as compras são feitas à medida (mais económico), e podemos cozinhar em quantidade para mais do que uma refeição, guardando em doses no frigorífico e/ou no congelador (mais tempo). Tudo guardado em caixas ou frascos de vidro, claro!

  • Resgatei a velhinha iogurteira da minha mãe e fiz iogurte caseiro. De uma assentada, recuperei as memórias de infância (quando o descartável ainda não reinava e os pequenos eletrodomésticos eram feitos para durar) e eliminei várias embalagens de plástico.

  • Não há nada mais fácil do que fazer granola em casa: aproveito as compras a granel de cereais, sementes e frutos secos que fiz, junto tudo num tabuleiro, adoço frugalmente e não refinadamente, e tosto no forno. Sirvo com o iogurte caseiro e a fruta biológica comprada no mercado, e começo o dia com um pequeno-almoço mais saudável e com menos idas ao Ecoponto Amarelo!

  • Como ainda temo aventurar-me nessa arte maior que é fazer pão manualmente, uso uma máquina do pão. Opto por comprar os ingredientes a granel ou em embalagens de papel e desenvolvi a minha própria receita de pão integral com sementes.

  • Já deixar de usar película aderente pode ser tão simples como colocar um prato em cima da taça, improvisando uma tampa… ou guardar aquela metade de tomate que sobrou num frasco, em vez de o asfixiar em camadas de plástico.

Resumindo e concluindo: passar um mês sem usar o Top 4 foi tão descomplicado que facilmente se tornará um hábito daqui para a frente. Já viver sem plástico descartável obriga a uma mudança no nosso estilo de vida, a uma mudança para um consumo consciente e solidário, conduzindo a uma reaprendizagem que se revela benéfica a todos os níveis. Durante este mês, e tanto quanto pude, retirei o plástico da equação, direta ou indiretamente. Perdi algumas batalhas (pasta dentífrica ainda em embalagem de plástico ou bebida vegetal em tetra pack, e alguns restaurantes sem alternativas a bebidas em copo ou embalagem de plástico) mas ganhei em saúde, poupei dinheiro e produzi menos lixo. Com tantas vantagens, o passo lógico será incorporar este desafio, gradual mas persistentemente, na minha rotina futura.

Uma nota final para os vários projetos portugueses e vencedores de prémios que podemos e devemos apoiar: Brigada do MarOcean AlivePlastic SunDays e Straw Patrol contribuem para que “A Minha (Nossa) Praia” seja “Plastic Free” todos os meses do ano!

O espírito Re:Costura

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A oficina de upcycling Re:Costura decorreu sábado dia 11 de Fevereiro, numa iniciativa da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal.

A Rosa tinha um conjunto saia-top que lhe estava apertado. Trouxe-o à Re:Costura com a ideia de o transformar numa camisa. Pôs-se a trabalhar com a Ana Sargento, da plataforma Fio, e em pouco tempo o conjunto inteiro estava descosido. A recostura pôde então começar.

“É importante ter um tecido de boa qualidade, como este, para reaproveitar”, explica Ana. “Quando o tecido é fraco, pode ficar estragado no processo de desfazer a peça”.

Ana Sargento estudou design de moda, mas quem primeiro a ensinou a costurar foi a mãe. Para esta apaixonada da modelagem (o desenho das diferentes partes que formam uma peça de roupa), participar na Re:Costura faz todo o sentido pelo “espírito de reaproveitamento” que guia o evento. “Os nossos avós tinham este espírito, mas foi-se perdendo”, lamenta Ana.

Ana e Rosa em plena Re:Costura
 

À volta da Rosa e da Ana, a azáfama é grande. As equipas têm uma hora e meia para elaborar e executar um projecto de recostura. Há quem esteja a substituir partes do tecido manchado de uma blusa de estimação, indo buscar a umas calças estragadas o pano em falta. Há um projecto de transformação de calças em top. E até apareceu uma Barbie à procura de peças exclusivas feitas de sobras, para enriquecer o seu guarda-roupa sustentável.

No final da hora e meia de trabalho, Rosa e Ana tinham abandonado a ideia da camisa e estavam a fazer um vestido-bata. A nova peça não ficou concluída – uma hora e meia é muito pouco tempo – mas está bem encaminhada, até à próxima sessão.