All Posts By

Andreia Barbosa

Lisboa, 2030: a vida numa cidade circular

By | Uncategorized | No Comments

A Economia Circular e a ideia de “fechar os ciclos” podem parecer conceitos abstratos. Mas a realidade é que já existem muitas iniciativas circulares por aí, provando que a economia circular está a acontecer (e não vai fazer marcha atrás). Para agarrar bem o conceito, perceber toda a sua força, propomo-nos neste artigo responder à seguinte questão: como será a Lisboa de 2030, quando as ideias circulares promovidas pela CEP e por muitos outros já tiverem tido tempo de se entranhar na cidade? Vamos fechar os olhos e imaginar…

Comecemos pela habitação. Em 2030 vamos viver em casas passivas que consomem muito pouca energia e até são capazes de a produzir, através, por exemplo, de painéis solares no telhado (instalados, p.ex., por Coopérnico). Nestas casas as “águas cinzentas” do chuveiro e do lavatório são filtradas e reutilizadas. Gastamos muito menos água.

Os condomínios são muito mais do que uma série de pessoas a viver no mesmo prédio: são centros de partilha e de boa vizinhança. Muitos edifícios terão uma lavandaria comum, uma pequena oficina com ferramentas (inspirada pela Library of Things), um atelier multiusos, tudo partilhado pelos condóminos.

Vamos até lá fora. A cidade está tão diferente! No lugar de alguns baldios e ruínas nasceram jardins e hortas (ex. Horta do Baldio). Há associações de hortelãos a cultivar legumes e a recolher resíduos orgânicos domésticos para compostagem (com apoio do ComBOA!). O feijão-verde da nossa sopa é produzido ali na esquina (e a alface da salada vem do sistema de hidroponia vertical instalado na marquise!). A agricultura urbana tornou-se um lugar-comum, tomando conta de um sem-número de canteiros e inventando novas maneiras de podermos comer a cidade (na foto acima: sistema de cultivo urbano desenvolvido por Ecocenter e Biovivos).

Por todo o lado há mercados de legumes orgânicos produzidos localmente (ex. Agrobio) e cooperativas de distribuição de comestíveis regionais (ex. Boa Colaborativa). Os supermercados vendem a maioria dos produtos a granel (ex. Maria Granel). Com tão pouco plástico para desembrulhar e com a recolha porta-a-porta de restos orgânicos, os nossos caixotes do lixo acumulam tão singelas quantidades que “levar o lixo” é coisa que raramente fazemos.

A Lisboa de 2030 tem mais árvores (em parte, graças ao empenho da Plataforma em Defesa das Arvores). O ar é mais limpo. O verão é mais fresco. A biodiversidade urbana aumentou. Os flamingos avistam-se com mais e mais frequência na zona da Expo, e às vezes vêem-se ouriços-cacheiros a atravessar a rua de uma horta para outra.

Já ninguém compreende como é possível que o automóvel tenha dominado a cidade durante tanto tempo. Lisboa é agora amiga dos peões e dos ciclistas (graças entre outros ao empurrão da MUBi). Os transportes públicos tornaram-se mais fiáveis, baratos e funcionais. Graças à infraestrutura integrada de transportes, é fácil combinar comboio com bicicleta ou autocarro eléctrico, e há sempre alternativa aos combustíveis fósseis. A cidade está menos barulhenta, menos poluída, menos perigosa, mais amiga das crianças e das pessoas com mobilidade reduzida.

Na Lisboa circular de 2030, também os objetos circulam. Foram concebidos para durar, e por isso estão aí para as curvas. E em caso de acidente, é fácil repará-los. Quando a torradeira se avaria, levamo-la ao Repair Café. As roupas que deixamos de usar, levamo-las à Re:Costura onde costureiros amadores e profissionais as reutilizam e transformam.

Os objetos também circulam porque os partilhamos numa economia colaborativa. Livros e filmes abundam nas bibliotecas comunitárias, para já não falar das públicas. A vida desmaterializou-se: certas coisas que antes consumíamos sob forma de objeto são agora serviços, como o carro que tínhamos e que entretanto vendemos para subscrever um sistema de partilha de automóveis (ex. Citydrive), poupando centenas de euros por ano. Ah sim: na Lisboa de 2030, gastamos menos dinheiro.

A Lisboa de 2030 é ainda mais cultural, criativa e estimulante. Há fablabs espalhados pelo país, onde toda a gente pode inventar e fazer objetos a partir de plástico reciclado (com Precious Plastics) ou outros recursos secundários. E fácil montar um grupo de teatro amador e dar espetáculos nos centros culturais de bairro (ex. Centro Mário Dionísio e, na foto, Pessoa e Companhia).

A educação está viva e presente no tecido da cidade. As escolas dos nossos filhos deixaram de ser lugares fechados. Expandiram-se, primeiro para a rua, cortando o trânsito para fazer parques infantis. As crianças fazem voluntariado nas instituições do bairro. A comunidade utiliza a instalações da escola para os seus projetos, envolvendo os alunos e professores.

Lisboa já é uma cidade linda, mas quanto mais circular se tornar, mais gosto vai dar viver nela. Que o futuro chegue depressa!

Co-habitação: novos modelos de alojamento para a cidade verde e inclusiva

By | Uncategorized | No Comments

A co-habitação (co-housing no mundo anglo-saxónico, habitat participatif no espaço francófono) constitui um modelo alternativo de alojamento em que a partilha e a participação são valores centrais. Os anos 2000 conheceram um crescimento deste tipo de projetos na Europa, num espírito de idealismo, ecologia e reapropriação da cidade.

Não é Lixo, é Vida

By | Uncategorized | No Comments

A compostagem de resíduos orgânicos representa uma alavanca fundamental para a transição ecológica, com benefícios económicos e ambientais de peso. Algumas cidades europeias, como é o caso de Milão, estão a demonstrá-lo. Lisboa ainda está tem um longo caminho a percorrer nesta matéria, mas as atenções começam a despertar para o enorme potencial da compostagem.

Esta informação, retirada do Plano Municipal de Gestão de Resíduos 2015, coloca Lisboa no grupo das metrópoles europeias que pouco fazem com os resíduos orgânicos que produzem. São a maioria. Muitas, Lisboa incluída, recuperam parte dos restos biodegradáveis dos “grandes produtores” (restaurantes, hotéis, cantinas escolares…), submetendo-os a “valorização energética” (produção de biogás) e/ou “valorização orgânica” (transformação em composto). Mas os resíduos domésticos ficam por enquanto fora do circuito. Esta é uma situação que está a mudar e tem de mudar, se é para levar a sério o Pacote de Economia Circular lançado em 2015 pela União Europeia. A Europa quer reciclar 65% dos resíduos que produz até 2030. Actualmente está em 43% (Lisboa em 20%). Sendo a fração orgânica tão relevante nas contas gerais do lixo que produzimos, o destino a dar aos nossos restos alimentares torna-se uma questão fulcral.

Ciclo Orgânico

Os bio-resíduos não representam apenas a maior fatia do nosso lixo. São também a mais valiosa. Factos básicos da vida que todos aprendemos (e provavelmente esquecemos) nas aulas de Ciências da Natureza: as plantas precisam de nutrientes para poderem crescer. Vão buscar o carbono, oxigénio e hidrogénio ao ar e à água, e depois azoto, fósforo, potássio e outros, ao solo. O problema é que a agricultura intensiva que praticamos foi esgotando os nutrientes presentes no solo. Hoje, grande parte dos alimentos produzidos no mundo depende de fertilizantes artificiais. Mas a mineração também está a revelar os seus limites: estima-se que a extração de fósforo atinja o seu pico em 2030 e as reservas se esgotem daqui a 50 ou 100 anos. Com o peak phosphurus a ameaçar tornar caríssimo o fósforo, a busca de soluções alternativas torna-se urgente.

É aí que a compostagem pode ter um papel preponderante: captar os resíduos orgânicos a nível local/ regional, compostá-los e enriquecer os solos com esse composto permite devolver (parte dos) nutrientes aos seus ciclos naturais – o que é essencial para a sustentabilidade da agricultura. A seca que estamos a viver atualmente em Portugal (e que as alterações climáticas prometem acentuar) deveriam bastar para fazer soar o alarme do desperdício que o não-aproveitamento dos resíduos orgânicos (eficazes na humidificação do solo) representa.

O caso de Milão

A grande maioria dos habitantes de Lisboa não tem outra opção senão deitar as suas cascas de batata para o lixo comum. Há excepções: o nosso colega Filipe Silveira (do projeto ComBOA!, ver abaixo) anda sempre com um contentorzinho de orgânicos atrás, e quando passa por uma horta urbana, despeja no compostor – mas suspeitamos que este seja um comportamento altamente invulgar.

Em Barcelona, por exemplo, existem ecopontos na rua, nos quais o cidadão pode depositar os seus resíduos diferenciados, incluindo orgânicos. Mas esta abordagem não é das mais bem-sucedidas: a taxa de contaminação (presença de resíduos não conformes) é alta (25%), o que tem consequências na quantidade e qualidade final do composto produzido.

Vale a pena olhar para o exemplo de Milão. Desde 2014 que todos os residentes (1,3 milhões) dispõem de um serviço e de recolha porta-a-porta de restos orgânicos, e a cidade é uma das que melhores resultados tem em termos de recolha seletiva e reciclagem a nível europeu. Está no bom caminho para atingir a meta europeia (vai em 54% de resíduos reciclados) e consegue captar, por ano e por habitante,100 quilos de restos orgânicos competentemente separados.

 

Como é que isto acontece na prática? Michele Giavini, senior expert no Conzorcio Italiano Compostatori(associação para a produção de composto e biogás) partilhou os pormenores em conversa com a CEP. Para implementar o sistema foi organizada uma campanha porta a porta na cidade inteira. Cada família recebeu gratuitamente um pequeno contentor (concebido para facilitar o arejamento, evitando maus cheiros) e um rolo de sacos biodegradáveis. As cozinhas ficaram assim equipadas para o trabalho de separação de orgânicos. Quando o saco fica cheio, coloca-se no contentor situado na parte comum do imóvel (80% das pessoas vive em prédios). O contentor é esvaziado duas vezes por semana pelo serviço de recolha. Nada muito diferente da recolha seletiva que existe em Lisboa, mas com um contentor suplementar e duas recolhas adicionais. Quando o rolo de sacos biodegradáveis chega ao fim, cabe às famílias comprarem mais.

Segundo dados do projeto Milano Recycle City, a qualidade dos restos alimentares assim recolhidos é muito boa, com apenas 5% de contaminação de outros materiais. Fatores importantes são o controlo rigoroso (todas as manhãs há 30 inspetores nas ruas), o modo de recolha (porta-a-porta) e o trabalho de comunicação que precedeu a medida e a tem acompanhado. A separação de orgânicos não é apenas uma tarefa suplementar que se pede às famílias, exige também alguma competência no modo de execução.

Boas práticas em Portugal

A nível nacional, quem mais dá cartas em matéria de resíduos orgânicos e compostagem é a Lipor. A Lipor é a associação intermunicipal responsável pela gestão dos resíduos na área dos municípios que a integram (Espinho, Gondomar, Maia, Matosinhos, Porto, Póvoa de Varzim, Valongo e Vila do Conde). “A compostagem está no ADN da Lipor”, sustenta Susana Freitas, da Unidade de Educação e Formação Ambiental. A história da associação assim o confirma: a Lipor nasceu da aquisição de uma empresa privada de Ermesinde, a Fertor, que produzia um fertilizante do mesmo nome a partir dos resíduos indiferenciados da região. Estávamos no início dos anos 80, Portugal ainda não tinha aderido à CEE e os padrões de consumo dos portugueses eram bem diferentes. “Na altura era viável produzir fertilizante a partir do lixo comum, uma vez que 90% era matéria orgânica”, resume Susana Freitas. Veio depois a revolução do consumo com seu rasto de embalagens e descarte fácil. O Fertor, resultante de um processo TMB (Tratamento Mecânico e Biológico) foi descontinuado em 2001 por já não ser possível assegurar a qualidade de outrora.

(Foto: Lipor)

Para além da valorização energética e orgânica dos resíduos de grandes produtores (para os quais, ressalve-se, não existe qualquer obrigatoriedade em separar orgânicos), a Lipor promove a compostagem doméstica através do programa “Terra a Terra”, que alia formação e oferta de um compostor (já foram dados mais de 10 mil). A compostagem caseira, reconhece Susana, não tem potencial para envolver muita gente (é preciso ter pelo menos um bocadinho de terreno para colocar o compostor, cuja base está em contacto direto com o solo). Mas foi o caminho escolhido pela Lipor para realizar a sua “missão de educação ambiental” (que se declina em vários outros projetos como a Horta da Formiga ou a Academia Lipor), na tentativa de preparar terreno nas consciências dos munícipes para coisas mais ambiciosas no futuro. É que em 2008 foi tentado, na Maia, um projeto de recolha porta-a-porta de orgânicos. “Os resultados foram fracos. As pessoas não percebiam a diferença entre lixo orgânico e indiferenciado”, explica Susana Freitas. Nove anos depois está em preparação um novo piloto – com mais hipóteses de sucesso, acredita Susana, dado o trabalho desenvolvido e o disparar da atenção global para com os problemas ambientais. 

Soluções Estruturais

Se é certo que está em marcha, a nível europeu, um movimento inequívoco no sentido de promover a reciclagem e especificamente a compostagem, “a legislação existente ainda não é suficiente”, considera Stefanie Siebert, directora executiva da European Compost Network, rede europeia de organizações de gestão de resíduos orgânicos. “A nível europeu existe apenas a obrigação de reduzir a presença de resíduos orgânicos em aterro. Isto não chega para favorecer a opção pela reciclagem de bio-resíduos”, explica. Para Siebert é evidente a relação entre legislação adequada (em países como a Áustria, Holanda, Alemanha) e resultados. “A Europa precisa de tornar a separação de bio-resíduos obrigatória”, defende. “Os municípios queixam-se de que a recolha seletiva de orgânicos fica cara, mas não é verdade. Há muitos estudos que mostram o contrário, porque se os bio-resíduos forem separados, decresce o volume de lixo indiferenciado a recolher e tratar. E a compostagem é a forma mais barata de tratar bio-resíduos”, avança Siebert.

Segundo Michele Giavini, implementar e gerir um esquema de recolha porta-a-porta de orgânicos não trouxe custos adicionais ao orçamento municipal de Milão. É que compostar (70 euros/tonelada) fica mais barato do que incinerar ou pôr em aterro (100 euros/tonelada). Esta diferença prende-se com a forte taxação da incineração e aterro na Lombardia, uma medida que Giavini gostaria de ver implementada a nível europeu, para favorecer a compostagem.

Compostagem numa Economia Circular

A relação entre cascas de batata de o futuro da vida na Terra pode não ser questão que dê muito que pensar ao lisboeta comum, mas há uns quantos que andam a matutar seriamente nisso e a tentar fazer a coisa acontecer. A CML vai avançar para a recolha seletiva de orgânicos em 2019, devendo ser abrangidos numa primeira etapa 6700 fogos (cerca de 3% do total). Em paralelo, por forma a “reduzir na fonte” a quantidade de resíduos a recolher, vai ser promovida a compostagem doméstica (com a distribuição, já em 2018, de 4000 compostores) e comunitária. Com estas e outras medidas (nomeadamente na prevenção do despedício alimentar) o município está a desempenhar um papel pioneiro em matéria de economia circular no âmbito do projeto europeu FORCE – Cities Cooperating For Circular Economy.

Por seu lado, a CEP lançou o ComBOA!, iniciativa que pretende ensinar, descomplicar e enraizar a prática da compostagem em Lisboa e arredores, a partir das hortas urbanas existentes e em colaboração com os hortelãos e horteloas que as cultivam. O ComBOA! está já a ser implementado nas hortas de S. João (foto) e do Texugo, no concelho de Almada, e prepara-se para experimentar, na freguesia de Campolide em Lisboa, um sistema de troca de resíduos orgânicos por moeda local (numa extensão do já muito falado projeto “Pago em Lixo”). Para conhecer o impacto destas iniciativas nas atitudes e práticas dos lisboetas, vai ser preciso esperar.

Uma coisa é certa: mudar integralmente a relação que temos com os resíduos orgânicos que produzimos é um imperativo – económico, ecológico, e em breve, possivelmente, legal. Aquilo a que chamamos lixo representa um recurso essencial para a sustentabilidade da vida na terra, e quanto mais cedo agirmos em consequência, mais rapidamente colheremos os benefícios.

 

O espírito Re:Costura

By | Uncategorized | No Comments

A oficina de upcycling Re:Costura decorreu sábado dia 11 de Fevereiro, numa iniciativa da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal.

A Rosa tinha um conjunto saia-top que lhe estava apertado. Trouxe-o à Re:Costura com a ideia de o transformar numa camisa. Pôs-se a trabalhar com a Ana Sargento, da plataforma Fio, e em pouco tempo o conjunto inteiro estava descosido. A recostura pôde então começar.

“É importante ter um tecido de boa qualidade, como este, para reaproveitar”, explica Ana. “Quando o tecido é fraco, pode ficar estragado no processo de desfazer a peça”.

Ana Sargento estudou design de moda, mas quem primeiro a ensinou a costurar foi a mãe. Para esta apaixonada da modelagem (o desenho das diferentes partes que formam uma peça de roupa), participar na Re:Costura faz todo o sentido pelo “espírito de reaproveitamento” que guia o evento. “Os nossos avós tinham este espírito, mas foi-se perdendo”, lamenta Ana.

Ana e Rosa em plena Re:Costura
 

À volta da Rosa e da Ana, a azáfama é grande. As equipas têm uma hora e meia para elaborar e executar um projecto de recostura. Há quem esteja a substituir partes do tecido manchado de uma blusa de estimação, indo buscar a umas calças estragadas o pano em falta. Há um projecto de transformação de calças em top. E até apareceu uma Barbie à procura de peças exclusivas feitas de sobras, para enriquecer o seu guarda-roupa sustentável.

No final da hora e meia de trabalho, Rosa e Ana tinham abandonado a ideia da camisa e estavam a fazer um vestido-bata. A nova peça não ficou concluída – uma hora e meia é muito pouco tempo – mas está bem encaminhada, até à próxima sessão.

Recosturar a nossa relação com o vestuário

By | Uncategorized | No Comments

A indústria têxtil é uma gigantesca força de destruição do planeta. Considere os seguintes números:

– para produzir o algodão necessário ao fabrico de uma só t-shirt gastam-se 2.700 litros de água.

– os químicos usados em tinturaria causam 20% da poluição industrial da hidrosfera.

– a maioria dos 14 milhões de crianças indianas que trabalham está ao serviço de uma fábrica têxtil.

– dos 2 milhões de toneladas de roupa que o Reino Unido deita fora todos os anos, 86% acaba incinerado ou em aterro.

– mesmo a reutilização dos têxteis descartados tem consequências negativas – as roupas que deixaram de estar na moda invadem os países em desenvolvimento, asfixiando a produção local. No Uganda só 20% do vestuário vendido não é refugo do Norte.

Estas são apenas algumas pinceladas do quadro muito, muito negro descrito pelo White Paper publicado em 2015 pela plataforma Fashion Revolution. Dos recursos naturais aos direitos humanos, a indústria têxtil tem um impacto tão feroz sobre o planeta que a necessidade de alterar radicalmente o seu funcionamento se impõe como uma evidência.

Nos dias que correm, não há gigante do retalho têxtil (H&M, Inditex) que não publicite os seus projetos de sustentabilidade. Sem ser preciso desconfiar da boa-fé das grandes marcas, é seguro afirmar que o desafio é enorme. Um exemplo: a reciclagem têxtil, no seu estado tecnológico actual, é bastante ineficaz. Tratar mecanicamente as fibras retira-lhes qualidade, gerando pouco valor – o resultado acaba muitas vezes como enchimento de sofás; a reciclagem química, ainda embrionária, consegue recuperar a fibra com a sua qualidade original mas apenas se o tecido for composto por um só tipo de fibra. As mesclas não se conseguem reciclar.

Mas para grandes problemas, grandes oportunidades. As organizações que conseguirem responder a este ou outros desafios de um têxtil que se quer verde e social vão estar a garantir a sua longevidade. As políticas públicas têm um papel importante no incentivo à economia circular, escreve o The Guardian (a Dutch Aweareness, que faz roupa em poliéster totalmente reciclável, é um exemplo de inovação que contou com um empurrãozinho da União Europeia). Mas têm de ser as próprias marcas a romper com os modelos de negócio estabelecidos, o que se torna difícil num ramo em que os diferentes elos da cadeia de abastecimento são tão interdependentes.

Em Portugal praticamente não existe quem recicle têxteis. “Não há nenhuma empresa portuguesa com maior visibilidade que tenha enveredado por este negócio, tornando a reciclagem uma componente importante do que produz”, confia ao Expresso Paulo Vaz, diretor-geral da Associação do Têxtil e Vestuário de Portugal. No entanto, já há estudos a dizer que a indústria têxtil portuguesa devia estar a olhar para esta oportunidade, servindo-se da sua organização em clusters para agarrar o desafio a várias mãos.

A reciclagem não é, porém, nem a única nem a melhor maneira de responder aos impactos negativos da indústria têxtil. A Patagonia, estandarte de boas práticas no que a sustentabilidade têxtil diz respeito, não apenas recicla mas concebe as suas roupas para durarem (oferecendo uma garantia vitalícia), serem reparadas e serem revendidas (tendo para isso criado a plataforma Worn Wear). As lojas de roupa em segunda mão prestam um excelente serviço de circularidade têxtil (sendo um prazer andar ali à cata de tesouros, como o Macklemore bem sabe). Ainda pouco conhecido, o aluguer de roupa (como praticado por exemplo pela Rentez-Vous) apresenta-se como um prometedor modelo de negócio.

A plataforma Fashion Revolution considera que a moda mais sustentável do mundo é aquela que já temos no roupeiro. E se queremos refrescar um bocadinho o nosso aspeto, que tal fazer roupa nova a partir daquelas peças que estão meio estragadas ou não nos apetecem tanto? É esse o conceito da Re:Costura, oficina de upcycling a decorrer sábado dia 11 de Fevereiro e que é uma iniciativa conjunta da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal, com a ajuda da Slow Repurpose. (Para provar que do velho se pode fazer não apenas novo mas terrivelmente apetecível, basta percorrer o blog Trash to Couture.)