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O espírito Re:Costura

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A oficina de upcycling Re:Costura decorreu sábado dia 11 de Fevereiro, numa iniciativa da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal.

A Rosa tinha um conjunto saia-top que lhe estava apertado. Trouxe-o à Re:Costura com a ideia de o transformar numa camisa. Pôs-se a trabalhar com a Ana Sargento, da plataforma Fio, e em pouco tempo o conjunto inteiro estava descosido. A recostura pôde então começar.

“É importante ter um tecido de boa qualidade, como este, para reaproveitar”, explica Ana. “Quando o tecido é fraco, pode ficar estragado no processo de desfazer a peça”.

Ana Sargento estudou design de moda, mas quem primeiro a ensinou a costurar foi a mãe. Para esta apaixonada da modelagem (o desenho das diferentes partes que formam uma peça de roupa), participar na Re:Costura faz todo o sentido pelo “espírito de reaproveitamento” que guia o evento. “Os nossos avós tinham este espírito, mas foi-se perdendo”, lamenta Ana.

Ana e Rosa em plena Re:Costura
 

À volta da Rosa e da Ana, a azáfama é grande. As equipas têm uma hora e meia para elaborar e executar um projecto de recostura. Há quem esteja a substituir partes do tecido manchado de uma blusa de estimação, indo buscar a umas calças estragadas o pano em falta. Há um projecto de transformação de calças em top. E até apareceu uma Barbie à procura de peças exclusivas feitas de sobras, para enriquecer o seu guarda-roupa sustentável.

No final da hora e meia de trabalho, Rosa e Ana tinham abandonado a ideia da camisa e estavam a fazer um vestido-bata. A nova peça não ficou concluída – uma hora e meia é muito pouco tempo – mas está bem encaminhada, até à próxima sessão.

Recosturar a nossa relação com o vestuário

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A indústria têxtil é uma gigantesca força de destruição do planeta. Considere os seguintes números:

– para produzir o algodão necessário ao fabrico de uma só t-shirt gastam-se 2.700 litros de água.

– os químicos usados em tinturaria causam 20% da poluição industrial da hidrosfera.

– a maioria dos 14 milhões de crianças indianas que trabalham está ao serviço de uma fábrica têxtil.

– dos 2 milhões de toneladas de roupa que o Reino Unido deita fora todos os anos, 86% acaba incinerado ou em aterro.

– mesmo a reutilização dos têxteis descartados tem consequências negativas – as roupas que deixaram de estar na moda invadem os países em desenvolvimento, asfixiando a produção local. No Uganda só 20% do vestuário vendido não é refugo do Norte.

Estas são apenas algumas pinceladas do quadro muito, muito negro descrito pelo White Paper publicado em 2015 pela plataforma Fashion Revolution. Dos recursos naturais aos direitos humanos, a indústria têxtil tem um impacto tão feroz sobre o planeta que a necessidade de alterar radicalmente o seu funcionamento se impõe como uma evidência.

Nos dias que correm, não há gigante do retalho têxtil (H&M, Inditex) que não publicite os seus projetos de sustentabilidade. Sem ser preciso desconfiar da boa-fé das grandes marcas, é seguro afirmar que o desafio é enorme. Um exemplo: a reciclagem têxtil, no seu estado tecnológico actual, é bastante ineficaz. Tratar mecanicamente as fibras retira-lhes qualidade, gerando pouco valor – o resultado acaba muitas vezes como enchimento de sofás; a reciclagem química, ainda embrionária, consegue recuperar a fibra com a sua qualidade original mas apenas se o tecido for composto por um só tipo de fibra. As mesclas não se conseguem reciclar.

Mas para grandes problemas, grandes oportunidades. As organizações que conseguirem responder a este ou outros desafios de um têxtil que se quer verde e social vão estar a garantir a sua longevidade. As políticas públicas têm um papel importante no incentivo à economia circular, escreve o The Guardian (a Dutch Aweareness, que faz roupa em poliéster totalmente reciclável, é um exemplo de inovação que contou com um empurrãozinho da União Europeia). Mas têm de ser as próprias marcas a romper com os modelos de negócio estabelecidos, o que se torna difícil num ramo em que os diferentes elos da cadeia de abastecimento são tão interdependentes.

Em Portugal praticamente não existe quem recicle têxteis. “Não há nenhuma empresa portuguesa com maior visibilidade que tenha enveredado por este negócio, tornando a reciclagem uma componente importante do que produz”, confia ao Expresso Paulo Vaz, diretor-geral da Associação do Têxtil e Vestuário de Portugal. No entanto, já há estudos a dizer que a indústria têxtil portuguesa devia estar a olhar para esta oportunidade, servindo-se da sua organização em clusters para agarrar o desafio a várias mãos.

A reciclagem não é, porém, nem a única nem a melhor maneira de responder aos impactos negativos da indústria têxtil. A Patagonia, estandarte de boas práticas no que a sustentabilidade têxtil diz respeito, não apenas recicla mas concebe as suas roupas para durarem (oferecendo uma garantia vitalícia), serem reparadas e serem revendidas (tendo para isso criado a plataforma Worn Wear). As lojas de roupa em segunda mão prestam um excelente serviço de circularidade têxtil (sendo um prazer andar ali à cata de tesouros, como o Macklemore bem sabe). Ainda pouco conhecido, o aluguer de roupa (como praticado por exemplo pela Rentez-Vous) apresenta-se como um prometedor modelo de negócio.

A plataforma Fashion Revolution considera que a moda mais sustentável do mundo é aquela que já temos no roupeiro. E se queremos refrescar um bocadinho o nosso aspeto, que tal fazer roupa nova a partir daquelas peças que estão meio estragadas ou não nos apetecem tanto? É esse o conceito da Re:Costura, oficina de upcycling a decorrer sábado dia 11 de Fevereiro e que é uma iniciativa conjunta da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal, com a ajuda da Slow Repurpose. (Para provar que do velho se pode fazer não apenas novo mas terrivelmente apetecível, basta percorrer o blog Trash to Couture.)