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Fevereiro 2017

O espírito Re:Costura

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A oficina de upcycling Re:Costura decorreu sábado dia 11 de Fevereiro, numa iniciativa da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal.

A Rosa tinha um conjunto saia-top que lhe estava apertado. Trouxe-o à Re:Costura com a ideia de o transformar numa camisa. Pôs-se a trabalhar com a Ana Sargento, da plataforma Fio, e em pouco tempo o conjunto inteiro estava descosido. A recostura pôde então começar.

“É importante ter um tecido de boa qualidade, como este, para reaproveitar”, explica Ana. “Quando o tecido é fraco, pode ficar estragado no processo de desfazer a peça”.

Ana Sargento estudou design de moda, mas quem primeiro a ensinou a costurar foi a mãe. Para esta apaixonada da modelagem (o desenho das diferentes partes que formam uma peça de roupa), participar na Re:Costura faz todo o sentido pelo “espírito de reaproveitamento” que guia o evento. “Os nossos avós tinham este espírito, mas foi-se perdendo”, lamenta Ana.

Ana e Rosa em plena Re:Costura
 

À volta da Rosa e da Ana, a azáfama é grande. As equipas têm uma hora e meia para elaborar e executar um projecto de recostura. Há quem esteja a substituir partes do tecido manchado de uma blusa de estimação, indo buscar a umas calças estragadas o pano em falta. Há um projecto de transformação de calças em top. E até apareceu uma Barbie à procura de peças exclusivas feitas de sobras, para enriquecer o seu guarda-roupa sustentável.

No final da hora e meia de trabalho, Rosa e Ana tinham abandonado a ideia da camisa e estavam a fazer um vestido-bata. A nova peça não ficou concluída – uma hora e meia é muito pouco tempo – mas está bem encaminhada, até à próxima sessão.

Desperdício Alimentar e Economia Circular: como dar a volta ao lixo delicioso – parte II

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Deitar comida fora? Que desperdício – de nutrientes, energia, tempo e dinheiro! Eis a nossa estratégia para reduzir o desperdício alimentar na esfera doméstica, em sete simples passos.

1. Planear. Defina um menu semanal e elabore uma lista de compras com base no que precisa (ingredientes e quantidades) e no que já tem em casa (frigorífico, despensa). Assim, evitará fazer compras de impulso e poderá estabelecer menus mais equilibrados e variados… e escusa de passar pelo stress habitual que se segue à  pergunta: “E agora o que é que eu faço para o jantar?”

2. Comprar. Sempre que possível, compre produtos:

– a granel: será mais fácil comprar as quantidades que realmente precisa, sem excedentes e sem embalagens;

– locais: para além de serem mais frescos e nutritivos, evitam-se os desperdícios e a poluição decorrentes do transporte de longa distância);

– biológicos: uma vez que são produzidos sem pesticidas, poderá aproveitar a totalidade do produto, incluindo as cascas, onde se acumulam os nutrientes (mas também os pesticidas…);

– feios e deformados: a qualidade é a mesma e o preço pode ser menor!

3. Saber. Há dois tipos de prazos de validade:  “Consumir até…” aplica-se a produtos perecíveis e é para ser levado à letra, já que consumi-los após esse prazo de validade é um risco para a saúde. “Consumir de preferência antes de…” aplica-se a produtos não perecíveis, embalados e enlatados e, tal como está na descrição, é uma “preferência”; não é imediatamente lixo e é seguro consumi-los depois desta data.

No caso das promoções “leve 2 pague 1” aplicado a produtos no fim da validade, avalie se precisa mesmo de mais quantidade ou se o barato irá sair caro…

4. Conservar e armazenar. Ao abastecer o seu frigorífico ou despensa:

– verifique a temperatura do frigorífico (1 a 5º C) e a temperatura do congelador (-15 a -18ºC);

– cumpra as instruções das embalagens dos produtos;

– faça a rotação correta dos produtos – se comprar um novo produto coloque-o atrás do mais antigo (frigorífico, despensa), para que este seja o primeiro a ser utilizado; evitará assim tanto a formação de bolores como a utilização do produto com prazo mais longo  em detrimento do produto com a validade mais curta.

5. Cozinhar. Ao preparar as suas refeições, assegure-se de que confeciona doses adequadas ao seu agregado familiar, para que não haja sobras ou excedentes; ou, caso não possa cozinhar todos os dias, faça quantidades para mais do que uma refeição e congele por doses. Na altura de servir, opte por pequenas porções: comer em demasia prejudica a saúde e conduz ao desperdício; e poderá sempre repetir se o desejar…

6. Aproveitar. No caso de se verificarem sobras ou excedentes:

– guarde-as no frigorífico, preferencialmente dentro de um recipiente de vidro transparente (poderão conservar-se até 3 dias) e terá marmita para o dia seguinte;

– congele pão às fatias, ervas aromáticas em cuvetes com azeite, fruta madura para fazer gelados ou batidos…

– faça caldos, compotas, pickles, smoothies… existem mil e uma receitas para aproveitamento de sobras, gratuitas e à distância de um clique.

7. Compostar. Se for possível, faça composto em casa ou sugira à sua junta de freguesia ou câmara municipal que aposte na compostagem comunitária (com a ajuda do ComBOA!).

Para além de tudo isto, pode juntar o útil ao agradável e desafiar os seus amigos para uma Disco Soup caseira!

Recosturar a nossa relação com o vestuário

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A indústria têxtil é uma gigantesca força de destruição do planeta. Considere os seguintes números:

– para produzir o algodão necessário ao fabrico de uma só t-shirt gastam-se 2.700 litros de água.

– os químicos usados em tinturaria causam 20% da poluição industrial da hidrosfera.

– a maioria dos 14 milhões de crianças indianas que trabalham está ao serviço de uma fábrica têxtil.

– dos 2 milhões de toneladas de roupa que o Reino Unido deita fora todos os anos, 86% acaba incinerado ou em aterro.

– mesmo a reutilização dos têxteis descartados tem consequências negativas – as roupas que deixaram de estar na moda invadem os países em desenvolvimento, asfixiando a produção local. No Uganda só 20% do vestuário vendido não é refugo do Norte.

Estas são apenas algumas pinceladas do quadro muito, muito negro descrito pelo White Paper publicado em 2015 pela plataforma Fashion Revolution. Dos recursos naturais aos direitos humanos, a indústria têxtil tem um impacto tão feroz sobre o planeta que a necessidade de alterar radicalmente o seu funcionamento se impõe como uma evidência.

Nos dias que correm, não há gigante do retalho têxtil (H&M, Inditex) que não publicite os seus projetos de sustentabilidade. Sem ser preciso desconfiar da boa-fé das grandes marcas, é seguro afirmar que o desafio é enorme. Um exemplo: a reciclagem têxtil, no seu estado tecnológico actual, é bastante ineficaz. Tratar mecanicamente as fibras retira-lhes qualidade, gerando pouco valor – o resultado acaba muitas vezes como enchimento de sofás; a reciclagem química, ainda embrionária, consegue recuperar a fibra com a sua qualidade original mas apenas se o tecido for composto por um só tipo de fibra. As mesclas não se conseguem reciclar.

Mas para grandes problemas, grandes oportunidades. As organizações que conseguirem responder a este ou outros desafios de um têxtil que se quer verde e social vão estar a garantir a sua longevidade. As políticas públicas têm um papel importante no incentivo à economia circular, escreve o The Guardian (a Dutch Aweareness, que faz roupa em poliéster totalmente reciclável, é um exemplo de inovação que contou com um empurrãozinho da União Europeia). Mas têm de ser as próprias marcas a romper com os modelos de negócio estabelecidos, o que se torna difícil num ramo em que os diferentes elos da cadeia de abastecimento são tão interdependentes.

Em Portugal praticamente não existe quem recicle têxteis. “Não há nenhuma empresa portuguesa com maior visibilidade que tenha enveredado por este negócio, tornando a reciclagem uma componente importante do que produz”, confia ao Expresso Paulo Vaz, diretor-geral da Associação do Têxtil e Vestuário de Portugal. No entanto, já há estudos a dizer que a indústria têxtil portuguesa devia estar a olhar para esta oportunidade, servindo-se da sua organização em clusters para agarrar o desafio a várias mãos.

A reciclagem não é, porém, nem a única nem a melhor maneira de responder aos impactos negativos da indústria têxtil. A Patagonia, estandarte de boas práticas no que a sustentabilidade têxtil diz respeito, não apenas recicla mas concebe as suas roupas para durarem (oferecendo uma garantia vitalícia), serem reparadas e serem revendidas (tendo para isso criado a plataforma Worn Wear). As lojas de roupa em segunda mão prestam um excelente serviço de circularidade têxtil (sendo um prazer andar ali à cata de tesouros, como o Macklemore bem sabe). Ainda pouco conhecido, o aluguer de roupa (como praticado por exemplo pela Rentez-Vous) apresenta-se como um prometedor modelo de negócio.

A plataforma Fashion Revolution considera que a moda mais sustentável do mundo é aquela que já temos no roupeiro. E se queremos refrescar um bocadinho o nosso aspeto, que tal fazer roupa nova a partir daquelas peças que estão meio estragadas ou não nos apetecem tanto? É esse o conceito da Re:Costura, oficina de upcycling a decorrer sábado dia 11 de Fevereiro e que é uma iniciativa conjunta da Fashion Revolution, FIO e Circular Economy Portugal, com a ajuda da Slow Repurpose. (Para provar que do velho se pode fazer não apenas novo mas terrivelmente apetecível, basta percorrer o blog Trash to Couture.)

 

 

Desperdício Alimentar e Economia Circular: como dar a volta ao lixo delicioso

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Deitar fora comida deixa-nos a todos com uma indigestão de culpa, principalmente quando ressoa na nossa memória a frase “tanta gente a passar fome e tu não comes o que está no prato!”. Para apaziguar o estômago e a consciência, preparamos um chá de boas intenções futuras, mas assim que o caixote do lixo se fecha, dissipam-se os vapores deste problema…
 
Se os impactos sociais são há muito conhecidos e reconhecidos (mas nunca resolvidos), os impactos económicos foram recentemente estimados pela FAO e pela União Europeia: um terço de toda a produção alimentar humana é desperdício.Na Europa, cerca de 88 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados anualmente, com um custo associado de 143 biliões de euros. Em Portugal e por ano, 1 milhão de toneladas de alimentos são deitados para o lixo, o que levou à publicação de um conjunto de novas medidas no âmbito da Comissão Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar.

E num tempo em que se fala tanto das alterações climáticas, sabia que o desperdício alimentar é responsável por uma emissão de gases de efeito de estufa equivalente à da rede global de transportes terrestres? Segundo a FAO, se o Desperdício Alimentar Mundial fosse um país, seria o terceiro emissor destes gases, logo a seguir à China e aos Estados Unidos, contribuindo para o aquecimento global… Perdeu o apetite?

A situação é, porém, reversível. Reintegrando os resíduos na economia, enquanto recursos, e maximizando a eficiência destes ao longo de toda a cadeia de valor, obtém-se aquilo a que a Economia Circular chama “ciclo fechado”: nada se perde, tudo se transforma, num perpétuo reaproveitamento amigo da natureza. Este modelo económico, que quer pôr fim a todos os tipos de desperdício, constitui um contributo promissor para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas para 2030, dos quais uma das metas é “reduzir para metade o desperdício de alimentos per capita a nível do retalho e do consumidor e reduzir as perdas de alimentos ao longo das cadeias de produção e de abastecimento”.

Para responder a este desafio surgiram em Portugal várias iniciativas que trabalham para evitar os desperdícios ao longo de toda a cadeia de abastecimento alimentar, na exploração agrícola, nas lojas, nos restaurantes:

  • A Re-food e a Dariacordar/Zero Desperdício são associações sem fins lucrativos que, voluntariamente, recolhem os alimentos (sobras de refeições, alimentos que se aproximam do fim da data de validade) a partir de uma vasta rede de dadores (supermercados, restaurantes, cafés, hospitais, hotéis) para depois os distribuir pelas famílias carenciadas.

  • A cooperativa Fruta Feia trabalha diretamente com os agricultores para escoar as frutas e legumes que não cumprem a Normalização, ou seja, o conjunto das regras de calibre, cor e formato. Ironicamente, esta Normalização foi imposta pela UE, que agora se vê soterrada em produtos que ensinou os consumidores a ver como “esteticamente impróprios para consumo”…

  • O GoodAfter.com é “um supermercado online dedicado à venda de produtos que se encontram perto do fim do prazo de consumo preferencial, ou mesmo ultrapassado esse prazo”. Desta forma tenta contrariar uma interpretação generalizada e errónea da expressão «consumir de preferência antes de» como sendo o prazo de validade a respeitar, o que leva a que se deitem fora alimentos comestíveis e seguros. Mais uma vez, a UE terá de clarificar e melhorar a sua própria legislação…

  • O projeto Muita Fruta pretende mapear, recuperar, cuidar e usar de modo sustentável as inúmeras árvores de fruto da cidade de Lisboa. Para tal, tem vindo a realizar um conjunto de atividades para combater o desperdício: workshops para podar árvores, confeção de compotas, jantares com chefs, etc.

Para que esta lista (não exaustiva) fique mais completa, só falta apostar na tecnologia e criar uma aplicação portuguesa semelhante à Too Good to Go, ResQ Club ou Gebni. Estas aplicações permitem aos restaurantes divulgar online as refeições que não foram vendidas às horas de almoço/jantar e que podem ser adquiridas posteriormente a preços reduzidos.

Ok. Faltamos nós, os consumidores. Cabe-nos a maior fatia, mais de 50% do desperdício alimentar de acordo com os dados da União Europeia. A boa notícia é que podemos reduzir facilmente esta percentagem, poupando dinheiro e protegendo a nossa saúde assim como o ambiente. Amanhã publicamos a nossa estratégia doméstica para evitar o desperdício, em sete etapas!

Junte-se à Circular Economy Portugal e ao Impact Hub no dia 23 de Fevereiro às 19h para falar de Desperdício Alimentar: causas, implicações, soluções.